sábado, 12 de setembro de 2020

Noopept: O Que é, Para que Serve, Funciona? E Quais os Efeitos Colaterais?

Reprodução de tela de website brasileiro de farmácia de manipulação que comercializa Noopept

"Noopept: concentração, memória, neuroprotetor, cognição e aprendizado", anuncia, em uma página de vendas, uma farmácia de manipulação de Santa Catarina (SC). "Noopept: melhora do aprendizado e memória, potente neuroprotetor, efeito nootrópico", alega outra empresa do mesmo ramo, também de SC, num folheto informativo publicado online.

Na Rússia, o Noopept é comercializado para tratar um amplo leque de doenças que causam problemas de memória, atenção ou condições que, genericamente, manifestem "sinais de decréscimo da produtividade intelectual". Num anúncio publicitário, os russos afirmam que o Noopept "ajuda a preservar não só uma excelente memória, mas também uma mente afiada".

Na Rússia, anúncios publicitários afirmam que o Noopept - foto do medicamento acima - ajudaria a preservar uma "excelente memória".

Fora das terras de Putin, porém, o Noopept ainda não foi aprovado, ou sequer analisado, para o uso humano por agências sanitárias. Por isso, em teoria, o Noopept não poderia ser comercializado. Nessas condições, seu consumo não é recomendado.

Adam McDonald, irlândes e com Mestrado em Ciências Nutricionais (sic) aventurou-se a usar a substância apesar desses riscos e, ao fim de 30 dias, publicou uma "resenha" de sua experiência no Youtube. Ele conta que decidiu avaliar objetivamente a eficácia da substância como melhorador intelectual - para isso, usou testes cognitivos da Universidade de Cambridge, disponíveis online. Os testes refletem o desempenho em áreas de raciocínio, proficiência verbal, concentração e memória.

"Eu não estava ficando mais inteligente, nem aumentando meus pontos em nenhuma das áreas", conta ele. "Foi quando eu comecei a duvidar dos seus efeitos, ou ao menos em pessoas saudáveis". Por outro lado, ele afirma que sentiu um benefício na ansiedade. "Também pareceu elevar um pouco o humor (...)", adiciona, relatando também efeitos como maior motivação para trabalhar, embora note que esses benefícios não foram tão notáveis quanto ao de outros suplementos.

O que realmente se sabe sobre essa substância? Confira aqui uma revisão completa sobre o Noopept.

domingo, 5 de julho de 2020

Piracetam: o pai dos nootrópicos

"Sem querer", cientistas criaram o piracetam, uma droga que ajudava pacientes a "raciocinar melhor". O piracetam estreou uma nova classe de drogas aliadas do intelecto - os nootrópicos



Nootrópicos: uma nova classe de substâncias
São 8 horas da manhã e você tem uma tonelada de um denso material para estudar, a fim de se preparar para uma prova que se aproxima. Você está um tanto sonolento - e sabe que a sessão de estudos será puxada e desgastante. Que tal um cafezinho? Se a ideia lhe soa atraente, então você está de alguma forma familiarizado com a ideia de um nootrópico.

O termo nootrópico nasceu nos anos 70: um cientista romeno, Giurgea, criou a palavra para descrever os efeitos únicos de uma droga que criou - o piracetam. Segundo Giurgea, os nootrópicos como o piracetam são substâncias que aumentam aprendizagem, memória e melhoram as funções cognitivas superiores - aquelas que exigem raciocínio e processamento complexo. 


Mas diferente de drogas como as anfetaminas, Giurgea defende que nootrópicos tem ação neuroprotetora e poucos efeitos colaterais [1, 2]. "A administração de nootrópicos protegeria o cérebro de toxinas e minimizaria os efeitos do envelhecimento cerebral", estabelecem alguns cientistas [3]. Segundo Giurgea:
“Os nootrópicos, na minha opinião, deveriam ser aceitos como uma categoria distinta, já que melhoram primária e diretamente as funções intelectuais, cognitivas, do cérebro" [4].

quinta-feira, 2 de julho de 2020

VÍDEO: Rhodiola rosea, uma aliada contra o cansaço?


Dizem que os vikings usavam a planta Rhodiola rosea para aumentar a resistência e a força física [1].  Essa planta é vendida no Brasil por prescrição médica, no medicamento de nome Fisioton, para indicações parecidas, como "reduzir a fadiga e contribuir para aumentar a capacidade de trabalho físico e mental".

Seria a Rhodiola o segredo da força dos vikings?

A Rhodiola, por si só, já é exemplo de resiliência: ela consegue florescer no alto de montanhas da Sibéria e do Ártico.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

L-teanina e cafeína para aumentar a atenção


Claudinho e Buchecha já falavam: "avião sem asa, fogueira sem brasa, sou eu assim sem você". No mundo dos nootrópicos - substâncias que melhorariam o desempenho mental - a cafeína não existe longe de uma substância chamada l-teanina. Essa dupla seria feito queijo com goiabada: uma combinação que intensificaria os poderes de cada um na atenção e bem-estar mental.

Cafeína: o estimulante clássico
Antes que a gente mergulhe na sinergia dessas duas substâncias, vamos falar das suas qualidades individuais. A cafeína dispensa muitas introduções. Afinal, é a substância psicoativa mais consumida do mundo. É provável que você tenha esse alcaloide correndo em suas veias nesse momento.

A ciência cartografou muitos dos seus benefícios à performance. Como um bom estimulante psicomotor, a cafeína reduz o tempo de reação, aumentando a velocidade de resposta a estímulos visuais e auditivos. A cafeína também adoça o humor, causando sensação de bem-estar e vigor. E melhora o estado de alerta - afastando o sono e reduzindo o impacto do cansaço nas funções mentais [1].

O outro lado da moeda é que essa substância também causa sintomas de ansiedade e tensão. Isso especialmente em doses maiores ou quando usada por pessoas sensíveis [1]. 


Por isso, a cafeína pode ser uma faca de dois gumes. Estados de agitação, nervosismo ou estresse - exacerbados pela cafeína -  podem prejudicar o desempenho em tarefas que exigem atenção ou raciocínio complexo. É o que diz a lei de Yerkes-Dodson, que estabelece uma relação entre o nível de excitação e de performance [2].

L-teanina: o aminoácido do relaxamento
Se você curte chá verde ou chá preto, então seu corpo está familiarizado com a l-teanina. É um aminoácido presente nas folhas da erva Camellia sinensis. Seus efeitos no humor estão em outro espectro: a l-teanina induz sensações de relaxamento e calma, reduzindo a tensão. Isso, porém, quando é suplementada em doses de 200 mg, cerca de dez vezes maior que a de uma xícara de chá [3]. Por isso, ela consegue aplacar os efeitos ansiogênicos da cafeína.

Os efeitos relaxantes da l-teanina, porém, não causam sonolência. Em exames de eletroencefalograma, a l-teanina induz um padrão de ondas do tipo alfa [4, 5] - que são associadas com estados de 'foco calmo'. Assim, o aminoácido produz um estado dual de serenidade e de concentração. E, de fato, o uso de l-teanina individualmente melhorou o desempenho em testes neuropsicológicos que exigem atenção [6].

Em um estudo publicado ano passado, o uso da l-teanina (200 mg/dia) por pessoas saudáveis foi capaz de melhorar os padrões de sono, comparado com o placebo. "Para as funções cognitivas, pontuações de fluência verbal e função executiva melhoraram após a administração de l-teanina", disseram os autores [7].

A combinação perfeita para o desempenho mental?
E quando a l-teanina e cafeína andam de mãos dadas? Várias pesquisas foram conduzidas sobre esse par, revelando que juntos, os dois formam um casal 20. Primeiro, a l-teanina abranda os efeitos negativos da cafeína: a combinação elimina a vasoconstrição causada pela cafeína [8]. Também promove relaxamento, reduzindo a sensação de tensão provocada pela cafeína [3]. E, segundo: os pontos positivos são realçados. A cafeína e l-teanina tem efeitos aditivos na atenção quando combinadas [6].

Num estudo, a combinação de 50 mg de cafeína com 100 mg de l-teanina resultou em melhora na habilidade de "desvio de foco" (attention switching) em pessoas saudáveis. Isto é: quem recebeu o combo foi mais capaz de manter bons níveis de atenção e desempenho quando tinham que ser 'multitarefa'. Parâmetros como agilidade e precisão na execução de atividades foram beneficiados. 

Os resultados ainda revelaram que a l-teanina e cafeína causaram uma menor suscetibilidade às distrações numa tarefa de memória.  Os autores da pesquisa concluem que "os resultados replicam evidências anteriores que sugerem que a l-teanina e a cafeína em combinação são benéficas para melhorar a performance em tarefas de alta demanda cognitiva" [9]. 

Outro estudo que empregou uma dose de 97 mg de l-teanina com 40 mg de cafeína também constatou uma melhora da atenção em pessoas saudáveis [10].

Relatos do uso de l-teanina com cafeína

A plataforma Reddit coleciona uma constelação de relatos de usuários de l-teanina com cafeína. Em geral, as dosagens empregadas são parecidas com as dos estudos - o dobro de l-teanina para cafeína (proporção de 2:1). Selecionei dois relatos:
  • "Fui tomado por uma onda de foco e clareza mental que não experimentava em muito, muito tempo (...). Minha velocidade de pensamento aumentou tremendamente. Eu não percebia o quão lentamente eu vinha raciocinando. Eu consigo processar as coisas com mais agilidade e não sinto como se minha mente estivesse movendo-se pela lama quando tento raciocinar com profundidade. Sinto-me estimulado, mas não completamente 'pilhado' (...). Minha mente está acordada, mas meu corpo está relaxado. Eu tendo a ficar ansioso quando um problema torna-se muito complicado, mas para mim esse combo eliminou isso. Eu sinto ter encontrado mais confiança quando resolvo problemas" [11].
  • "Essa combinação me acalma e permite que eu não faça meus trabalhos apressado. A única forma que eu consigo explicar é que eu tenho um sentimento de paz (...)." [12].
Conclusão
L-teanina é reconhecida pelo FDA, a "Anvisa" norte-americana, como "geralmente segura" - selo conferido a poucos suplementos. Como cafeína e l-teanina são compostos presentes em fontes dietéticas, isso enfatiza a segurança de ambos. Muitas pesquisas confirmaram que a combinação dessas duas substâncias é eficaz em melhorar alguns aspectos da cognição - em especial a habilidade de atenção. Apesar da eficácia e segurança dessa combinação ter respaldo, o ideal é que o uso seja orientado por um profissional de saúde.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Piracetam: droga promissora no estresse pós-traumático



Pesquisa revela que piracetam pode facilitar recuperação de traumas

O piracetam é a vedete do mundo dos nootrópicos. A boa fama pouco tem a ver com estudos mostrando benefícios à cognição: poucas pesquisas avaliaram os efeitos da droga em pessoas saudáveis. Tal popularidade é melhor explicada pela tonelada de relatos pregando que o piracetam melhora o aprendizado. Funciona ou não?

Estamos longe de um consenso. Porém, uma pesquisa recém-publicada, em outubro de 2019 - feita em ratos - reforça um pouco a crença de internautas. Cientistas do Instituto de Tecnologia da Índia concluíram que o piracetam facilita a consolidação de novas informações. Mais do que isso - o piracetam "substitui" memórias traumáticas por novos aprendizados, apagando registros de medo.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Nó-de-cachorro: nootrópico e afrodisíaco?


Todo dia de manhã, antes de começar o batente, João da Cruz Oliveira, 62 anos, lavrador em Poconé, Mato Grosso, toma uma talagada de cachaça misturada com a raiz de uma planta conhecida como nó-de-cachorro. (...) Uma dose por dia, numa xícara de cafezinho, energiza as crianças preguiçosas, fortifica a memória, diminui o colesterol e, garantem os pantaneiros, previne a impotência sexual.
Os nomes para a planta quase milagrosa acima são muitos: além de nó-de-cachorro (porque alguém com pensamentos bizarros disse que a raiz parecia com o pênis canino) e raiz de Santo Antônio. A ciência também não deixa passar despercebida a fama: chama a planta de Heteropterys aphrodisiaca. Nome sugestivo.

E vem de longa data. Em 1929, o Estado de Mato Grosso alertou a cientistas que os ramos eram "louvados" como "tônico afrodisíaco". Em 1949, finalmente foi identificada a espécie, descrita como "planta medicinal útil principalmente como afrodisíaca e contra o esgotamento nervoso", contra o desânimo e revigorando mente e corpo. Mas será que a ciência concorda com esse uso popular?

sábado, 28 de setembro de 2019

Noopept: relatos de uso x o que a ciência sabe

ATENÇÃO: esse artigo não incentiva nem endossa o uso de Noopept, que não tem registro na Anvisa. Trata-se de uma discussão do que se sabe atualmente sobre seu uso e efeitos.

Medicamento russo, o Noopept é pregado como elixir da inteligência. Veja o que a ciência diz.

"Alguém me contou sobre esse nootrópico, chamado Noopept que é 1000 vezes mais forte que o piracetam - o nootrópico original". Foi assim que Grega Gostincar e o Noopept se conheceram. Grega é fundador de uma empresa norte-americana de venda de nootrópicos (melhoradores cognitivos).

Ele não se deu convencido de primeira sobre o poder do Noopept. 1000 vezes mais poderoso? "Isso não pode ser verdade! Como seria possível?" - conta que essa foi sua reação inicial.

Grega: "Muitas pessoas confirmam que se sentem bem melhor, além de sentir mais foco"

Mas Grega cedeu diante da soma de relatos de que o Noopept seria capaz de melhorar o "desempenho cerebral de forma dramática". Após algumas pesquisas, decidiu tentar por si mesmo.

E acabou engrossando o coro dos fãs do Noopept. Diz ele: "É um ótimo melhorador cognitivo. Definitivamente melhora o foco". Grega não notou benefícios na memória - outra vantagem atribuída à droga - mas surpreendeu-se com os efeitos positivos do Noopet no humor.