quarta-feira, 1 de julho de 2020

L-teanina e cafeína para aumentar a atenção


Claudinho e Buchecha já falavam: "avião sem asa, fogueira sem brasa, sou eu assim sem você". No mundo dos nootrópicos - substâncias que melhorariam o desempenho mental - a cafeína não existe longe de uma substância chamada l-teanina. Essa dupla seria feito queijo com goiabada: uma combinação que intensificaria os poderes de cada um na atenção e bem-estar mental.

Cafeína: o estimulante clássico
Antes que a gente mergulhe na sinergia dessas duas substâncias, vamos falar das suas qualidades individuais. A cafeína dispensa muitas introduções. Afinal, é a substância psicoativa mais consumida do mundo. É provável que você tenha esse alcaloide correndo em suas veias nesse momento.

A ciência cartografou muitos dos seus benefícios à performance. Como um bom estimulante psicomotor, a cafeína reduz o tempo de reação, aumentando a velocidade de resposta a estímulos visuais e auditivos. A cafeína também adoça o humor, causando sensação de bem-estar e vigor. E melhora o estado de alerta - afastando o sono e reduzindo o impacto do cansaço nas funções mentais [1].

O outro lado da moeda é que essa substância também causa sintomas de ansiedade e tensão. Isso especialmente em doses maiores ou quando usada por pessoas sensíveis [1]. 


Por isso, a cafeína pode ser uma faca de dois gumes. Estados de agitação, nervosismo ou estresse - exacerbados pela cafeína -  podem prejudicar o desempenho em tarefas que exigem atenção ou raciocínio complexo. É o que diz a lei de Yerkes-Dodson, que estabelece uma relação entre o nível de excitação e de performance [2].

L-teanina: o aminoácido do relaxamento
Se você curte chá verde ou chá preto, então seu corpo está familiarizado com a l-teanina. É um aminoácido presente nas folhas da erva Camellia sinensis. Seus efeitos no humor estão em outro espectro: a l-teanina induz sensações de relaxamento e calma, reduzindo a tensão. Isso, porém, quando é suplementada em doses de 200 mg, cerca de dez vezes maior que a de uma xícara de chá [3]. Por isso, ela consegue aplacar os efeitos ansiogênicos da cafeína.

Os efeitos relaxantes da l-teanina, porém, não causam sonolência. Em exames de eletroencefalograma, a l-teanina induz um padrão de ondas do tipo alfa [4, 5] - que são associadas com estados de 'foco calmo'. Assim, o aminoácido produz um estado dual de serenidade e de concentração. E, de fato, o uso de l-teanina individualmente melhorou o desempenho em testes neuropsicológicos que exigem atenção [6].

Em um estudo publicado ano passado, o uso da l-teanina (200 mg/dia) por pessoas saudáveis foi capaz de melhorar os padrões de sono, comparado com o placebo. "Para as funções cognitivas, pontuações de fluência verbal e função executiva melhoraram após a administração de l-teanina", disseram os autores [7].

A combinação perfeita para o desempenho mental?
E quando a l-teanina e cafeína andam de mãos dadas? Várias pesquisas foram conduzidas sobre esse par, revelando que juntos, os dois formam um casal 20. Primeiro, a l-teanina abranda os efeitos negativos da cafeína: a combinação elimina a vasoconstrição causada pela cafeína [8]. Também promove relaxamento, reduzindo a sensação de tensão provocada pela cafeína [3]. E, segundo: os pontos positivos são realçados. A cafeína e l-teanina tem efeitos aditivos na atenção quando combinadas [6].

Num estudo, a combinação de 50 mg de cafeína com 100 mg de l-teanina resultou em melhora na habilidade de "desvio de foco" (attention switching) em pessoas saudáveis. Isto é: quem recebeu o combo foi mais capaz de manter bons níveis de atenção e desempenho quando tinham que ser 'multitarefa'. Parâmetros como agilidade e precisão na execução de atividades foram beneficiados. 

Os resultados ainda revelaram que a l-teanina e cafeína causaram uma menor suscetibilidade às distrações numa tarefa de memória.  Os autores da pesquisa concluem que "os resultados replicam evidências anteriores que sugerem que a l-teanina e a cafeína em combinação são benéficas para melhorar a performance em tarefas de alta demanda cognitiva" [9]. 

Outro estudo que empregou uma dose de 97 mg de l-teanina com 40 mg de cafeína também constatou uma melhora da atenção em pessoas saudáveis [10].

Relatos do uso de l-teanina com cafeína

A plataforma Reddit coleciona uma constelação de relatos de usuários de l-teanina com cafeína. Em geral, as dosagens empregadas são parecidas com as dos estudos - o dobro de l-teanina para cafeína (proporção de 2:1). Selecionei dois relatos:
  • "Fui tomado por uma onda de foco e clareza mental que não experimentava em muito, muito tempo (...). Minha velocidade de pensamento aumentou tremendamente. Eu não percebia o quão lentamente eu vinha raciocinando. Eu consigo processar as coisas com mais agilidade e não sinto como se minha mente estivesse movendo-se pela lama quando tento raciocinar com profundidade. Sinto-me estimulado, mas não completamente 'pilhado' (...). Minha mente está acordada, mas meu corpo está relaxado. Eu tendo a ficar ansioso quando um problema torna-se muito complicado, mas para mim esse combo eliminou isso. Eu sinto ter encontrado mais confiança quando resolvo problemas" [11].
  • "Essa combinação me acalma e permite que eu não faça meus trabalhos apressado. A única forma que eu consigo explicar é que eu tenho um sentimento de paz (...)." [12].
Conclusão
L-teanina é reconhecida pelo FDA, a "Anvisa" norte-americana, como "geralmente segura" - selo conferido a poucos suplementos. Como cafeína e l-teanina são compostos presentes em fontes dietéticas, isso enfatiza a segurança de ambos. Muitas pesquisas confirmaram que a combinação dessas duas substâncias é eficaz em melhorar alguns aspectos da cognição - em especial a habilidade de atenção. Apesar da eficácia e segurança dessa combinação ter respaldo, o ideal é que o uso seja orientado por um profissional de saúde.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Piracetam: droga promissora no estresse pós-traumático



Pesquisa revela que piracetam pode facilitar recuperação de traumas

O piracetam é a vedete do mundo dos nootrópicos. A boa fama pouco tem a ver com estudos mostrando benefícios à cognição: poucas pesquisas avaliaram os efeitos da droga em pessoas saudáveis. Tal popularidade é melhor explicada pela tonelada de relatos pregando que o piracetam melhora o aprendizado. Funciona ou não?

Estamos longe de um consenso. Porém, uma pesquisa recém-publicada, em outubro de 2019 - feita em ratos - reforça um pouco a crença de internautas. Cientistas do Instituto de Tecnologia da Índia concluíram que o piracetam facilita a consolidação de novas informações. Mais do que isso - o piracetam "substitui" memórias traumáticas por novos aprendizados, apagando registros de medo.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Nó-de-cachorro: nootrópico e afrodisíaco?


Todo dia de manhã, antes de começar o batente, João da Cruz Oliveira, 62 anos, lavrador em Poconé, Mato Grosso, toma uma talagada de cachaça misturada com a raiz de uma planta conhecida como nó-de-cachorro. (...) Uma dose por dia, numa xícara de cafezinho, energiza as crianças preguiçosas, fortifica a memória, diminui o colesterol e, garantem os pantaneiros, previne a impotência sexual.
Os nomes para a planta quase milagrosa acima são muitos: além de nó-de-cachorro (porque alguém com pensamentos bizarros disse que a raiz parecia com o pênis canino) e raiz de Santo Antônio. A ciência também não deixa passar despercebida a fama: chama a planta de Heteropterys aphrodisiaca. Nome sugestivo.

E vem de longa data. Em 1929, o Estado de Mato Grosso alertou a cientistas que os ramos eram "louvados" como "tônico afrodisíaco". Em 1949, finalmente foi identificada a espécie, descrita como "planta medicinal útil principalmente como afrodisíaca e contra o esgotamento nervoso", contra o desânimo e revigorando mente e corpo. Mas será que a ciência concorda com esse uso popular?

sábado, 28 de setembro de 2019

Noopept: relatos de uso x o que a ciência sabe

ATENÇÃO: esse artigo não incentiva nem endossa o uso de Noopept, que não tem registro na Anvisa. Trata-se de uma discussão do que se sabe atualmente sobre seu uso e efeitos.

Medicamento russo, o Noopept é pregado como elixir da inteligência. Veja o que a ciência diz.

"Alguém me contou sobre esse nootrópico, chamado Noopept que é 1000 vezes mais forte que o piracetam - o nootrópico original". Foi assim que Grega Gostincar e o Noopept se conheceram. Grega é fundador de uma empresa norte-americana de venda de nootrópicos (melhoradores cognitivos).

Ele não se deu convencido de primeira sobre o poder do Noopept. 1000 vezes mais poderoso? "Isso não pode ser verdade! Como seria possível?" - conta que essa foi sua reação inicial.

Grega: "Muitas pessoas confirmam que se sentem bem melhor, além de sentir mais foco"

Mas Grega cedeu diante da soma de relatos de que o Noopept seria capaz de melhorar o "desempenho cerebral de forma dramática". Após algumas pesquisas, decidiu tentar por si mesmo.

E acabou engrossando o coro dos fãs do Noopept. Diz ele: "É um ótimo melhorador cognitivo. Definitivamente melhora o foco". Grega não notou benefícios na memória - outra vantagem atribuída à droga - mas surpreendeu-se com os efeitos positivos do Noopet no humor.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

PRL-8-53 te dá uma memória de elefante?

Um composto experimental é divulgado como promessa para turbinar aprendizado e memória. Mas o que, de fato, se sabe sobre o PRL-8-53?




Por sugestão de um leitor, fui conferir sobre um suposto milagroso ativador da memória: o PRL-8-53. Basta tascar esse nome curioso no Google para encontrar títulos sensacionais. Exemplo: "Um potenciador da memória tão poderoso que chega a ser ridículo", anuncia um website. Em português, outra busca prega: "memória até 200% melhor". 

Para mim, soa tentador dar um upgrade no meu HD mental de 100 GB (ou sabe-se lá qual medida) e chegar a uns 300 GB. Então, fui pesquisar um pouco mais a fundo sobre o PRL-8-53. Contrariando minhas expectativas, há uma secura de informações sobre o tal composto nas publicações científicas.

O fascínio inicial com o PRL-8-53
"Funcionamento do cérebro e memória ganham um up de composto chamado PRL-8-53", anuncia edição de 6 de setembro de 1979 do Baltimore Sun

sábado, 30 de março de 2019

O uso de corticoides pode afetar o comportamento e cognição?

Medicamentos corticoides simulam os efeitos do cortisol - o hormônio do estresse. Eles te deixarão mais estressados?


Cortisol no banco dos réus
Se você já ouviu falar sobre o cortisol, é bem provável que ele tenha sido apresentado a você como o  "hormônio do estresse". É uma sentença que faz com que esse hormônio pareça um vilão. "Hormônio da serenidade", por exemplo, seria um título mais gracioso. Apesar disso, o cortisol é essencial para a vida. Vamos à sua defesa:

Ele é fundamental para que seu corpo reaja a ameaças. Por exemplo, permanecer zen feito um monge budista ao ver uma cobra numa mata não seria muito vantajoso. O cortisol, por exemplo, ajuda a mobilizar açúcar - fonte de energia - para o cérebro e para os músculos, auxiliando nas respostas de sobrevivência (luta e fuga). Ele também regula o sistema imunológico - suprimindo respostas inflamatórias exageradas que gastam muita energia [1].

Mas grande parte de nós não convive mais com tigres em selvas. Os estressores modernos são outros - problemas conjugais, com a família, sobrecarga de trabalho, pressão para cumprir prazos, material acadêmico acumulado, o trânsito, os boletos (e por aí vai...). 


A depender das demandas do ambiente e da nossa sensibilidade individual, o botão "cortisol" pode ficar ligado por tempo demais [2]. E aí, sim, teremos problemas. O estresse crônico e, por tabela, a exposição prolongada a altas concentrações de corticoides pode ser prejudicial: é associada com transtornos de humor e com a exaustão mental [3]. Em animais, causa atrofia do hipocampo, que é a parte do cérebro responsável pela formação de memórias, gerando prejuízos cognitivos [4].

Então, lição do dia: relaxe, pegue mais leve. O cérebro agradece!

Corticoides sintéticos: da farmácia para o cérebro
Mas e os corticoides sintéticos, medicamentos prescritos para doenças inflamatórias e alérgicas? Ao mimetizar o cortisol, será que eles podem criar, no sistema nervoso, um estado artificial de estresse e afetar nosso comportamento, humor e cognição?

Sim, isso é possível - mas não é comum. O humor pode virar uma montanha-russa com o uso de corticoides. Agitação, ansiedade, humor elevado (inclusive otimismo, satisfação e bem-estar) e insônia são descritos, especialmente em homens. Ao mesmo tempo, mulheres são mais suscetíveis a humor deprimido com o uso desses medicamentos. Também podem reduzir a memória e prejudicar a concentração [5, 6].

Mas, calma lá: há muitos fatores em jogo. Claro - corticoides em spray ou creme não terão os mesmos riscos de corticoides utilizados via oral, por exemplo. Os efeitos colaterais psiquiátricos dependem da dose: ocorrem em 1.3% dos casos de pacientes que recebem 40 mg de prednisona (ou equivalente) diariamente. Mas sobem expressivamente quando se usam doses de 80 mg por dia: 18.4% dos pacientes terão efeitos psíquicos [5, 6].

O tempo de uso também influencia muito. Efeitos cognitivos são mais comuns após o uso prolongado de corticoides. Além disso, essas perturbações do humor e intelecto são geralmente resolvidas com a redução da dosagem ou a descontinuação da droga [5, 6, 7].

Conclusão

De novo, a recomendação é: dê uma folga para suas glândulas suprarrenais. Se você foi prescrito um corticoide por um médico, não se preocupe. Relaxe.

Do ponto de vista neuropsiquiátrico, corticoides são drogas geralmente seguras nas dosagens usuais (até 40 mg), especialmente em ciclos curtos, como em crises alérgicas.

Quando prescritos de forma adequada, os seus benefícios superam os riscos em potencial. Por exemplo, os corticoides são comumente usados em doenças que causam inflamação excessiva - e sabe-se que estados hiperinflamatórios são associados com perturbações do humor e da cognição [8].

Caso você note alterações no comportamento, humor, concentração, memória ou raciocínio com o uso de algum corticoide, procure e converse com o médico que lhe prescreveu o medicamento.

Descubra mais: como melhorar o desempenho do seu cérebro

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  • Tudo sobre nootrópicos - substâncias que prometem aumentar a capacidade de concentração, melhorar a memória, humor e raciocínio. Eu coletei relatos de uso e também pesquisei o veredito da ciência sobre a eficácia e segurança de dezenas desses compostos.
  • Estratégias de estilo de vida, como a melhora da qualidade de sono, para melhorar seu desempenho mental.
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domingo, 17 de março de 2019

Cognitina?: os efeitos da nicotina no desempenho intelectual

Melhora o alerta, ajuda a manter o foco, afia a memória e pode ser uma aliada na luta contra o Alzheimer. O problema: estamos falando da nicotina


[Atenção: não fume. Este artigo debate os efeitos da nicotina em sua forma isolada. Não tem intenção de prescrever ou encorajar seu uso sem prescrição]

Nicotina. Qual é a primeira coisa que vem à sua cabeça ao ler essa palavra?

Não é uma pergunta retórica. Pause por cinco segundos e imagine.

Enfisema, câncer de pulmão, vício? Talvez as figuras tenebrosas no verso das cartelas de cigarro? Se você é como a maioria, nicotina é uma palavra já carregada de noções negativas. Dificilmente, você pensará nela como uma substância capaz de melhorar o intelecto.

Não é à toa que seu cérebro evoca imagens assombrosas diante dessa palavrinha. A reputação sórdida da nicotina tem raízes naquele ditado: me diga com quem andas, te direi quem és. É uma entre as mais de 5000 substâncias encontradas no cigarro. Mas frequentemente todos os estragos do fumo caem na conta dela.

Separando os dois, muitos cientistas apontam que a nicotina "pura" (administrada por goma de mascar ou adesivo) tem pouco poder de tornar alguém viciado. O que é mais intrigante: pode melhorar a memória, atenção, função motora e humor de pessoas saudáveis, em doses controladas.

"O grande problema com a nicotina é que ela é encontrada em cigarros. As pessoas não conseguem dissociar os dois conceitos: nicotina e fumar". Quem argumenta é a PhD em Bioquímica e neurocientista, Maryka Quik. Ela sabe do que fala: já escreveu dezenas de artigos sobre o  potencial da nicotina para tratar a doença de Parkinson.


Você não leu errado. Soa estranho pensar na nicotina como remédio - mas ela tem sido amplamente investigada como uma terapia para doenças neurodegenerativas [1]. E também para "turbinar" a mente de pessoas saudáveis.

"Até onde eu sei, a nicotina é a substância mais confiável com o objetivo de melhorar a cognição. Seus benefícios ao desempenho intelectual em pessoas saudáveis são mais comprovados do que de qualquer outro composto", afirma uma professora de psicologia experimental na Universidade de Sussex (Reino Unido).

Ela chega a comparar a nicotina com o famoso modafinil (Stavigile): "A evidência (provas científicas) de que o modafinil melhora as funções cognitivas nem de longe é tão forte quanto a evidência de benefícios da nicotina".

O poder da nicotina