segunda-feira, 7 de julho de 2025

SULBUTIAMINA PARTE 4 - Histórias Impossíveis de Uma Substância Impossível

Do Exército brasileiro ao Tour de France...

23 de junho - um dia após desconstruir Bettendorff. A emancipação intelectual gerou energia imediata: se as autoridades são inadequadas, vou buscar evidências em primeira mão.

Este é o texto onde saio do laboratório e vou para o mundo real. Aqui aparecem os personagens mais memoráveis da série: dependentes químicos em recuperação, militares brasileiros com conhecimento misterioso, ciclistas profissionais no Tour de France, primatas com eletrodos na cabeça. É onde a sulbutiamina encontra a vida humana em toda sua estranheza.

Narrativamente, é o meu favorito até aqui. A linguagem fica mais solta, o humor mais evidente, as histórias mais envolventes. Psicologicamente, é libertação total - posso explorar qualquer direção que pareça interessante. Resultado: descobri que a sulbutiamina tem uma biografia mais bizarra que maioria das pessoas.

Se você vai ler apenas um texto da série, que seja este.

— M.P.

Strength in unity


Summary

  • Sulbutiamina classificada como psicoanaléptico em 1978, atuando como neurotônico que melhora funções cognitivas superiores sem hiperestimulação típica de estimulantes clássicos.

  • Estudos em ratos mostraram melhora significativa na aprendizagem e memória, especialmente em condições de estresse metabólico, sugerindo efeitos cognitivos genuínos.

  • Ensaios clínicos humanos indicaram eficácia em dependentes químicos pós-abstinência, idosos com declínio cognitivo e adultos com fadiga psíquica, com melhora em vigilância, humor e memória.

  • Pesquisa em primatas revelou facilitação da vigília e reorganização do sono sem efeitos tóxicos, indicando otimização da função neural sem estimular excessivamente.

  • Estudo em camundongos associou sulbutiamina à melhora da consolidação da memória de longo prazo, possivelmente via modulação do sistema colinérgico hipocampal, embora com limitações metodológicas.

  • Pesquisa brasileira de 1985 destacou uso da sulbutiamina para melhorar desempenho físico e mental em atletas militares, antecipando conceitos modernos de enhancement cognitivo.

  • Relato do uso no Tour de France de 1990 indicou aplicação prática da sulbutiamina como recurso ergogênico lícito, apesar da fragilidade metodológica dos dados.

  • Sulbutiamina permanece uma substância multifacetada, com perfil entre suplemento, medicamento e nootrópico, valorizada por sua tolerabilidade e efeitos específicos na fadiga mental e recuperação.


A sulbutiamina na prática

Emerge um composto com propriedades psicoanalépticas

Em 1978, Jacques Servier deposita uma patente (4071629) que enquadra formalmente a sulbutiamina pela primeira vez na história clínica moderna como um agente com propriedades "psicoanalépticas" [1].

Aqui, cabe conceituar bem essa categoria em que a sulbutiamina está sendo encaixada. "Psicoanalépticos" é um conceito clássico da farmacologia europeia. São compostos que atuam como revigorantes da mente - elegantemente otimizam as funções cognitivas superiores. Pense como "neurotônicos": restauram o tônus psíquico de forma progressiva, sustentável e sem hiperestimulação. Age elevando o drive mental, a prontidão, o ânimo, mas sem produzir a excitação ansiosa típica das anfetaminas ou cafeína em doses altas.

Diferente dos psicoestimulantes clássicos, os psicoanalépticos são mais refinados. Não causam estimulação geral, mas atuam de maneira seletiva nas funções cognitivas superiores - especialmente sobre as funções psíquicas superiores como atenção, vigília, humor, motivação e energia mental, como uma nutrição pro cérebro.

Até então, pelo que conta a patente, a sulbutiamina era empregada em doses de 5 a 50 mg para combater os efeitos tóxicos da avitaminose B1. "Vitaberin é um composto antigo, já descrito na literatura". Era esse o nome da vitamina. Mas Servier clama uma descoberta: propriedades farmacológicas "surpreendentes" emergem em doses mais elevadas - deixa de ser uma vitamina, passa a funcionar como um nootrópico com propriedades analépticas. A sulbutiamina passa a ser encarada como um medicamento para "distúrbios psiquícos, alterações do comportamento, redução da vigilância e enfraquecimento do tônus psiquíco e intelectual", com doses sugeridas especialmente entre 400 a 1200 mg por dia -- admitindo até 1500 mg/dia; que são maiores dos que os atualmente empregados.

Ratos esfomeados e inteligentes

Para sustentar essa reivindicação de propriedades psicoanalépticas, Servier apresenta na patente dados experimentais que, pelos padrões da época, eram metodologicamente sólidos e cientificamente relevantes.

O experimento mais significativo utilizou um modelo de labirinto em ratos — protocolo padrão para avaliar aprendizagem e memória. Ratos em jejum de 48 horas navegavam por corredores até encontrar alimento, realizando cinco percursos por sessão com intervalos de 10 minutos. Os pesquisadores mediam tempo de execução, número de erros e taxa de falhas.

Os resultados foram estatisticamente significativos e consistentes: enquanto ratos controle apresentaram deterioração natural da performance (tempo aumentando de 46,7s para 65,7s ao longo de 10 dias), animais tratados com sulbutiamina 30 mg/kg pordia mantiveram performance superior e eliminaram completamente os testes negativos (0% versus 26,75% nos controles, P=0,05).

O achado mais notável veio nos testes de recuperação de memória após 15 dias sem reforço. A sulbutiamina não apenas restaurou habilidades deterioradas, mas acelerou significativamente a reaprendizagem — um efeito que transcende simples correção vitamínica.

Interpretação e limitações: Este experimento forneceu a primeira evidência controlada de que a sulbutiamina possui efeitos cognitivos genuínos em doses farmacológicas. Contudo, é importante contextualizar: o modelo utilizava estresse metabólico severo (jejum prolongado), o que pode confundir efeitos puramente cognitivos com efeitos energético-motivacionais. Pelos padrões metodológicos atuais, faltavam controles farmacológicos mais refinados e análises neuroquímicas.

Ainda assim, os dados estabeleceram precedente científico válido para reclassificar a sulbutiamina como agente psicoanaléptico, fornecendo base experimental que seria posteriormente validada em estudos clínicos humanos descritos na mesma patente.

Experimentos clínicos

Os estudos clínicos humanos descritos na patente revelam um perfil terapêutico ainda mais fascinante. Servier testou a sulbutiamina em quatro populações estratégicas, cada uma revelando aspectos únicos de sua ação psicoanaléptica.

Sulbutiamina reduz o sofrimento psíquico de dependentes químicos

O achado mais surpreendente veio do Estudo A, com 70 dependentes químicos, com média de idade de 24,7 anos, recém-saídos da desintoxicação. Esta é uma população notoriamente desafiadora. São pacientes que se apresentam em estado de psicastenia grave, típica do pós-abstinência: estados depressivos, insônia, apatia, angústia, alto risco de recaída.

Essa é uma população particularmente difícil. São pacientes com que sofrem com:

  • ✔️ Astenia avassaladora

  • ✔️ Depressão anérgica

  • ✔️ Insônia refratária

  • ✔️ Anedonia completa

  • ✔️ Redução da vigilância, embotamento, lentificação, apatia

  • ✔️ Altíssimo risco de recaída — porque a recaída é muitas vezes uma tentativa de remediar esse estado psíquico insuportável.

Os resultados são expressivos:

  • 82% de melhora nos quadros de psicastenia pós-abstinência

  • 80% de melhora nos distúrbios de vigilância induzidos por tranquilizantes

  • 68,4% de melhora em estados depressivos após privação

Era como se a substância restaurasse especificamente os circuitos neurais deteriorados pelo uso crônico de drogas.

Isso é notável porque:

  • Estamos falando de uma síndrome clínica robusta, altamente incapacitante, e a sulbutiamina mostrou efeitos consistentes na reconstituição do tônus psíquico e vigilância, sem ser um estimulante clássico, o que é clinicamente ouro nesse perfil de pacientes.

É uma prova de conceito importante. A farmacologia da sulbutiamina está sendo testada no ambiente neurobiológico mais devastado possível — e passando no teste.

Igualmente notável foi o Estudo D com 46 idosos de idade média 83 anos. Utilizando doses padronizadas de 600mg diários por 4-10 semanas, os pesquisadores aplicaram testes psicométricos objetivos (Wechsler-Bellevue) antes e depois do tratamento. Os resultados foram clinicamente significativos: 37 dos 46 pacientes apresentaram melhoria mensurável em memória (86% de eficácia), atenção (84%) e vigilância (82%). Em uma população onde o declínio cognitivo é esperado e irreversível, a sulbutiamina demonstrava efeitos neuroprotetores genuínos.

O Estudo C, com 80 adultos com psicastenia de diferentes origens, demonstrou eficácia de 64% em doses de 400-800mg diários por 4 semanas. Embora menos específico, validou o uso da sulbutiamina em "astenias reacionais" — fadiga psíquica decorrente de estresse emocional ou sobrecarga — uma indicação que ressoa fortemente com demandas cognitivas modernas. Esse grupo é particularmente relevante porque corresponde diretamente ao tipo de paciente que aparece no consultório atual: fadiga crônica, quadros depressivos leves, neurose ansiosa com comprometimento do funcionamento executivo.

Facilitação da vigília em primatas

Análise do Estudo sobre Sulbutiamina em Primatas Macaca mulatta

Visão Geral do Estudo

Em 1982, Emmanuel Balzamo e Ghislaine Vuillon-Cacciuttolo, estudaram os efeitos da sulbutiamina (Arcalion) nos estados de vigilância de primatas não-humanos [2].

Utilizando 6 macacos rhesus (Macaca mulatta) implantados com eletrodos para monitoramento eletroencefalográfico contínuo, os pesquisadores conseguiram mapear objetivamente os efeitos da sulbutiamina no cérebro. A sulbutiamina foi administrada na dose de 300 mg/kg/dia por via oral durante 10 dias consecutivos.

As doses eram deliberadamente supraterapêuticas — até 10 vezes superiores às utilizadas clinicamente — para detectar qualquer alteração neurobiológica sutil.

Os resultados confirmaram objetivamente as propriedades psicoanalépticas. A partir do 5º dia, a sulbutiamina induziu alterações específicas e reproduzíveis no córtex cerebral: aumento dos ritmos rápidos beta (>28Hz) durante a vigília, facilitação do estado de alerta e reorganização inteligente do sono. O sono REM permaneceu intacto, mas o sono lento foi otimizado — menos tempo nos estágios superficiais, transição mais eficiente para estágios profundos.

Esse padrão sugere um deslocamento do cérebro para um estado de hiperalerta basal, mas sem características disruptivas extremas. É como se a homeostase de base fosse elevada, aumentando o "tônus de vigília" sem abolir a arquitetura fundamental do sono.

A cinética dos efeitos fala a favor de efeitos estruturais, não agudos: aparecimento entre 4-5 dias, máximo no 10º dia, persistência por 2-5 dias após suspensão. Para os autores, esta dinâmica temporal sugere que a sulbutiamina não produz efeitos farmacológicos diretos - ou seja, sem ações brutas como as de um psicoestimulante tradicional como anfetaminas. Faria, sim, reajustes adaptativos nos sistemas regulatórios cerebrais.

Crucialmente, mesmo em doses massivas, a tolerabilidade foi excelente: apenas hipersalivação transitória em dois animais. Comportamento, motricidade e interação social permaneceram normais. Isso confirmou que a sulbutiamina otimiza função neural sem toxicidade — uma característica fundamental que a diferencia de estimulantes convencionais.

  • Esse é um dos estudos em animais mais importantes sobre a sulbutiamina. A metodologia é robusta: primatas (algo translacional para humanos), com medidas objetivas com EEG contínuo, demonstrando efeitos clínicos nos ritmos do ciclo sono-vigília. Os achados sugerem que ela otimiza a eficiência neural - facilita vigília quando necessário, mas preserva e até melhora a qualidade do sono.

Camundongos com melhor formação de memórias de longo-prazo... E com sistema colinérgico à todo vapor

Em 1985, Micheau e colaboradores, da Universidade de Bordeaux, produziram um dos marcos da literatura sobre a sulbutiamina. Num estudo em animais, eles amarram efeitos bioquímicos detectáveis da sulbutiamina na neuroquímica cerebral a um desfecho comportamental mensurável: a melhora da consolidação da memória de longo prazo [3]. É um estudo inaugural, com metodologia simples - com alguns problemas, mas válido mesmo assim.

Nesse estudo muito citado, camundongos aprenderam uma tarefa operante (pressionar alavanca por comida) em sessão única, sendo retestados 24 horas depois. Animais que receberam sulbutiamina (300 mg/kg, via gavagem, por 10 dias) não apresentaram diferença na velocidade de aprendizagem durante a aquisição da tarefa, mas demonstraram desempenho significativamente superior 24 horas depois, no teste de retenção. Isso caracteriza um efeito clássico sobre a consolidação da memória, e não sobre aprendizagem em si.

Paralelamente, análises neuroquímicas revelaram aumento de 10% na captação de colina hipocampal sódio-dependente — primeira evidência direta de que a sulbutiamina modula o sistema colinérgico cerebral. Os autores propuseram um mecanismo plausível: tiamina → acetil-CoA → síntese de acetilcolina. Poderia haver uma melhora na capacidade de sustentar liberações de acetilcolina sob estresse -- o que melhoraria a formação e consolidação de memórias -- o que justificaria maior captação.

A relação entre melhora na retenção e incremento na atividade colinérgica é plausível, sustentada pela literatura que conecta disfunção colinérgica a quadros de déficit de memória (inclusive em encefalopatias por deficiência de tiamina).

Porém, há limitações metodológicas importante. Os autores empregaram gavagem forçada: procedimento que gera estresse crônico relevante nos animais. Inclusive, os autores relatam que o grupo placebo (tratado apenas com goma arábica) apresentou piora da retenção em relação ao grupo controle absoluto (não tratado), o que eles mesmos atribuem ao estresse da gavagem, e não à goma.

Isso levanta um ponto crítico: a melhora vista no grupo sulbutiamina pode não ser puramente um efeito de melhora cognitiva per se, mas também de uma mitigação dos efeitos negativos do estresse crônico da gavagem. Em outras palavras, parte do efeito pode ser antagonismo do impacto do estresse sobre memória, algo que, ainda assim, é clinicamente relevante — sobretudo em populações fatigadas, ansiosas ou fragilizadas.

O artigo não descreve de forma suficiente a caracterização farmacológica da sulbutiamina. As doses também são extremas para um camundongo: 300mg/kg/dia é dose massiva (equivale a ~20g/dia para humano de 70kg). Muito acima de qualquer uso terapêutico.

  • Ainda assim, este estudo estabeleceu dois achados fundamentais: em camundongos, a sulbutiamina facilita especificamente a consolidação de memória sem afetar aquisição, e possivelmente o faz através de modulação do sistema colinérgico hipocampal.

🪖✨ Sulbutiamina no Brasil. Para otimização ergogênica e cognitiva farmacológica.

Um achado pitoresco: o "easter egg" brasileiro

Paralelamente ao desenvolvimento científico europeu, emerge um documento histórico peculiar e revelador em 1985: um estudo brasileiro conduzido por Paulo Roberto Pacheco na Escola de Educação Física do Exército, intitulado "Efeitos da Sulbutiamina (Arcalion) sobre a fadiga física e psíquica nos atletas" [4].

Este trabalho representa uma anomalia fascinante na literatura científica — um "experimento fantasma" que aparece isolado na história da pesquisa brasileira, sugere redes de conhecimento sofisticadas, e depois desaparece sem deixar rastros de continuidade.

O autor apresentava conhecimento neurobiológico surpreendentemente sofisticado para 1985, especificando que a sulbutiamina atua em "três estruturas do Sistema Nervoso Central: o Sistema Límbico e em particular o Hipocampo, as células de Purkinje no cerebelo e a formação reticular no tronco cerebral". Distinguia precisamente que sua ação era "desprovida de efeitos de tipo excitante" -- que coaduna com a visão de "psicoanaléptico" em voga na época.

É uma descrição rigorosa, surpreendentemente alinhada com o que os próprios estudos farmacológicos franceses da época apresentavam. E que, como vamos explorar mais tarde, contrariam totalmente a ideia de Bettendorff de que não há evidências de que a sulbutiamina chegue ao cérebro.

O verdadeiro mistério reside nas redes científicas implícitas. Como um pesquisador militar brasileiro teve acesso a literatura neurobiológica tão avançada? As referências citam estudos franceses dos anos 70-80 que permanecem arqueologicamente inacessíveis: "Ensaios clínicos sobre astenia orgânica", "Relatório sobre atividade anti-astênica", "Interesse terapêutico do Arcalion em meio esportivo". Isso demonstra que o Exército Brasileiro, via seu setor médico-desportivo, estava absolutamente conectado com as fontes técnicas primárias da neurofarmacologia francesa da época.

O estudo avalia o efeito da sulbutiamina em atletas.

É isso que torna este episódio ainda mais extraordinário. Ele figura, muito provavelmente, como um dos primeiros registros do uso de sulbutiamina no contexto explícito de enhancement de pessoas saudáveis — fora do domínio terapêutico clássico de astenia funcional. Na prática, trata-se de uma investigação sobre como otimizar não apenas a recuperação, mas também o desempenho físico e mental de atletas militares, dentro de uma lógica absolutamente alinhada com o conceito contemporâneo de cognitive enhancement ou performance pharmacology, embora essas expressões sequer existissem no vocabulário da época.

O estudo em si foi metodologicamente simples mas historicamente significativo: atletas militares receberam 400mg diários de sulbutiamina por 90 dias, sendo avaliados através de questionários subjetivos e testes físicos objetivos. Os resultados foram notavelmente consistentes com os achados europeus: 83% reportaram melhoria em memória e rendimento intelectual, 75% em concentração e motivação, 66% em ansiedade, com tolerância excelente.

O próprio pesquisador reconheceu a natureza preliminar de seus achados, observando que "individualmente há diferenças de performance importantes" — um insight sobre variabilidade individual que antecipava décadas de pesquisa em farmacogenética. Solicitava estudos controlados posteriores que, curiosamente, nunca foram realizados.

Curiosamente, o artigo documenta, com riqueza quase documental, fotografias dos testes de campo — cenas de soldados alinhados, testes de força isométrica e avaliações de esforço, compondo quase uma cápsula temporal que revela não só um estudo, mas também uma estética militar da Medicina da época.

  • Era a primeira demonstração clara de que a substância poderia ser usada não para tratar doenças, mas para melhorar capacidades normais — um conceito que só se tornaria amplamente aceito décadas depois. Os resultados são consistentes na direção de uma percepção subjetiva clara de melhora. Na tabela de avaliação qualitativa, mais de 60% dos atletas relatam melhora relevante em memória, motivação, rendimento físico e redução de cansaço. Os efeitos reportados podem refletir uma combinação de benefícios genuínos e expectativa, sendo impossível determinar a contribuição relativa de cada componente sem estudos controlados adequados.

Sulbutiamina chega ao Tour de France: recurso ergogênico lícito

Neste ponto da narrativa, o leitor atento já deve ter percebido que a história da sulbutiamina segue uma lógica própria e ligeiramente surrealista — uma sequência de episódios onde o improvável se torna rotineiro e o científico convencional brilha pela ausência. Assim, quando deparamos com uma publicação de 1991 no Journal International de Médecine descrevendo o uso de Arcalion no Tour de France de 1990, já não nos chega como surpresa.

Sim, o Tour de France — a mais célebre e brutal prova de ciclismo do planeta. Um grupo de ciclistas profissionais foi submetido a um pequeno experimento com Arcalion® (sulbutiamina) como recurso para suporte energético e cognitivo durante a competição.

O estudo — se é que podemos chamá-lo assim — é um misto de relatório médico, nota de rodapé histórica e panfleto farmacêutico. G. Nicolet reporta — em formato que oscila elegantemente entre comunicação científica e material promocional — a experiência com 30 ciclistas durante a competição mais exigente do planeta. Só isso. Sem grupo controle, sem delineamento claro, sem métricas objetivas.

Os resultados seguem o padrão já familiar: "70% de melhoria" na recuperação, tolerabilidade excelente, efeitos específicos na fadiga mental. O que torna este documento fascinante não são os achados — metodologicamente indefensáveis — mas o que ele revela sobre redes científicas informais. Médicos do Tour de France, evidentemente, consideravam a sulbutiamina valiosa o suficiente para uso sistemático na competição ciclística mais prestigiosa do mundo.

A sulbutiamina parece ser vítima perpétua de circunstâncias extraordinárias — sempre no lugar onde a ciência encontra a aventura, onde o protocolo encontra a improvisação, onde o convencional vai morrer. É uma substância permanentemente flutuando na fronteira borrada entre suplemento, medicamento, nootrópico, estimulante, remédio e talvez até amuleto bioquímico.

Aliás, se há uma constante em sua história, é essa: a dificuldade em definir exatamente o que ela é e pra que ela serve, que nunca impediu ninguém de tentar usá-la — seja em estudantes, idosos, soldados, alcoólatras em abstinência ou atletas do Tour de France. Talvez isso reflita a natureza pleiotrópica da própria substância - ao não agir num alvo molecular específico (como um receptor), mas essencialmente aumentar os níveis neuronais de uma substância obscura, com uma multiplicidade de funções: a tiamina trifosfato.

O Que Dá Para Afirmar (Com Alguma Honestidade Intelectual)

Três aspectos tornam este documento particularmente significativo. Primeiro, demonstra tolerabilidade excepcional em condições impossíveis de replicar — três semanas de esforço máximo, calor extremo, privação de sono. Segundo, os efeitos reportados são específicos para fadiga mental e recuperação, consistentes com o perfil psicoanaléptico. Terceiro, revela que médicos esportivos franceses consideravam a substância suficientemente valiosa para uso sistemático na competição mais prestigiosa do mundo.

Apesar da fragilidade metodológica, o episódio do Tour não é irrelevante. Primeiro, porque confirma o enquadramento cultural da sulbutiamina naquela época: não era vista como doping pesado, mas como uma espécie de biohack aceitável, algo entre café gourmet e ritalina de boutique. Segundo, porque reforça, ao lado do artigo tupiniquim, sua inserção precoce na lógica do enhancement cognitivo e físico em indivíduos saudáveis, muito antes de isso se tornar um debate bioético formal.

No final, o "estudo" do Tour de France é exatamente o que esperaríamos da sulbutiamina: metodologicamente inadequado, historicamente fascinante, contextualmente revelador, e ligeiramente impossível de ignorar. É mais um tijolo na construção de uma narrativa que desafia categorização — parte ciência, parte marketing, parte antropologia, parte ficção científica bem documentada.

Essa publicação também faz referência a vários estudos científicos não rastreáveis e não indexados em bases de dados - ou seja, aos quais não temos acesso direto - que compõem uma literatura cinzenta sobre a sulbutiamina.

[1] Novel pharmaceutical compositions and method for treating psychasthenia. Servier, J. (1978). (U.S. Patent No. 4,071,629). United States Patent and Trademark Office. https://patents.google.com/patent/US4071629A/en

[2] Facilitation de l’état de veille d’un traitement semi-chronique par la sulbutiamine (Arcalion) chez Macaca mulatta. Balzamo, E., & Vuillon-Cacciuttolo, G. Revue d'Electroencéphalographie et de Neurophysiologie Clinique, 1982, 12(4), 373–378. https://doi.org/10.1016/S0370-4475(82)80029-4

[3] Administração crônica de sulbutiamina facilita a formação de memória de longo prazo em camundongos: possível mediação colinérgica.
Micheau, J., Durkin, T. P., Destrade, C., Rolland, Y., & Jaffard, R. (1985). Pharmacology Biochemistry and Behavior, 23(2), 195–198. https://doi.org/10.1016/0091-3057(85)90555-6

[4] Efeitos da sulbutiamina (Arcalion) sobre a fadiga física e psíquica nos atletas. Pacheco, P. R. (1985). Revista de Educação Física do Exército, (115), 15–19.

SULBUTIAMINA PARTE 3 A Emancipação: Por Que Bettendorff, o tiaminólogo, Está Errado

O momento da ruptura

22 de junho. Este é o texto onde tudo muda. Acabou a reverência, acabou o "talvez eu esteja entendendo errado". Aqui eu finalmente digo o que estava pensando há dias: o maior especialista mundial em derivados de tiamina está sistematicamente desperdiçando seus próprios dados.

O tom é completamente diferente - assertivo, até impaciente. Frases como "capacidade quase patológica" e "embaraçosamente simplistas" mostram que a luva de veludo saiu. É irritação científica legítima: quando você percebe que perdeu tempo tentando racionalizar trabalho inadequado.

Psicologicamente, é libertação intelectual. No dia seguinte, já estava explorando evidências clínicas com energia renovada. A emancipação é energizante.

— M.P. 

Cognitive Luminosity


Summary

  • Revisão crítica da literatura sobre sulbutiamina, destacando a dependência excessiva das visões de Bettendorff e a necessidade de perspectivas independentes.

  • Sulbutiamina aumenta significativamente os níveis cerebrais de tiamina trifosfato (ThTP), mais que a tiamina pura, devido à sua melhor absorção e capacidade de ativar vias metabólicas específicas.

  • ThTP está associado a funções neurais importantes, como modulação de canais iônicos, plasticidade de membranas, sinalização neural, metabolismo energético e fosforilação proteica.

  • Sulbutiamina atua preferencialmente no pool citosólico de tiamina difosfato (ThDP) de alto turnover, precursor direto do ThTP, explicando sua eficácia superior em aumentar ThTP.

  • Bettendorff, apesar de produzir dados experimentais sólidos, apresenta interpretações contraditórias e relutância em reconhecer o papel central do ThTP na farmacodinâmica da sulbutiamina.

  • A sulbutiamina deve ser vista não apenas como precursor de tiamina, mas como modulador sistêmico de múltiplas vias ThTP-dependentes no cérebro, com efeitos pleiotrópicos em cognição, fadiga e função neuromuscular.

  • Necessidade urgente de sair do paradigma restrito de Bettendorff para buscar abordagens científicas mais diversificadas e robustas sobre a sulbutiamina.

  • Reflexão pessoal sobre a evolução intelectual rápida e profunda no estudo da sulbutiamina, passando de consumidor passivo a produtor ativo de conhecimento e teoria original.

  • Reconhecimento do valor clínico e científico da sulbutiamina e do desenvolvimento de habilidades analíticas e críticas essenciais para a prática psiquiátrica futura.


PARTE III - Revisando profundamente a sulbutiamina

Os textos anteriores se pautaram muito pelas visões de Bettendorff sobre a tiamina trifosfato. Revisar extensivamente a literatura que um único autor produziu -- ainda que muito criticamente, como eu fiz -- vem com certos vieses. Inevitavelmente, examinaremos tudo sob a lente, narrativa e seguindo a trilha de raciocínio desse autor. Por exemplo: mesmo que para refutar visões eventualmente distorcidas do Bettendorff, a gente está obrigatoriamente partindo do ponto de vista dele e trabalhando em cima do framework conceitual dele, entende? Estamos jogando bola em seu campo. Este texto explorará perspectivas alternativas - que nos ajudarão a formar uma imagem mais realista sobre a sulbutiamina.

O estudo Subcellular localization and compartmentation of thiamine derivatives in rat brain (Bettendorff et al., 1994) demonstrou que injeções intraperitoneais de sulbutiamina causam um aumento intenso de tiamina livre e especificamente de tiamina trifosfato (ThTP) no cérebro de ratos - bem mais do que a injeção de tiamina pura, mesmo em altas doses. A sulbutiamina é "mais facilmente absorvida, pois atravessa barreiras celulares por difusão passiva". Mas, além disso, ela desloca a tiamina para vias bioquímicas e metabólicas que geram mais ThTP. Isso é muito curioso: a sulbutiamina consegue "ativar" de forma potente, em específico, essa via, como num tropismo metabólico que leva ao acúmulo de ThTP.

  • Ou seja, ela potencializa a formação do ThTP — um composto altamente suspeito de ter funções neurais específicas, ligadas à atividade elétrica, plasticidade de membranas e talvez sinalização. Esse estudo, inclusive, documenta que a tiamina trifosfato é muito rica em locais específicos do sistema nervoso: nos sinaptossomos, mitocôndrias e na bainha de mielina. Isso nos leva a crer que a sulbutiamina, por conseguinte, pode estar modulando processos membranosos específicos como excitabilidade, permeabilidade iônica, ou release de neurotransmissores, via aumento de ThTP.

  • Bettendorff declara: "In addition, we note that brain free thiamine content is higher 4 h after administration of SBT than after 1 h." Isso contradiz o próprio... Bettendorff, que declararia, 19 anos depois que: "No important increase in brain thiamine levels are observed even with these derivatives". [2].

Anteriormente, em 1990, Bettendorff documentou em estudos com ratos que injeções intraperitoneais agudas de sulbutiamina geram níveis séricos muito mais altos de tiamina do que após a injeção de tiamina pura [3]. Além disso, a sulbutiamina faz com que esses níveis permaneçam altos de forma sustentada - por ao menos 60 minutos. É como se a sulbutiamina formasse um reservatório lipofílico de tiamina, que a liberasse gradualmente. Bettendorff declara: "we can conclude that sulbutiamine is at least partially transformed into thiamine and can be considered as a precursor of this vitamin".

Esse mesmo estudo descobriu que a sulbutiamina consegue aumentar os níveis de ThTP em todas as quatro regiões do cérebro dos roedores avaliadas: hipocampo, medula, cerebelo e córtex; diferente da tiamina pura em altas doses, que não tem essa propriedade. Mais que isso, a sulbutiamina aumenta consideravelmente todos os quatro derivados de tiamina (tiamina mono, di e trifosfato e tiamina livre) nas quatro regiões cerebrais testadas.

  • "We have shown that sulbutiamine can act as a nrecursor of thiamine and its phosphate derivatives, and injection of pharmacologic doses of sulbutiamine can lead to an increase of TIP in the brain and kidney, an increase not observed when thiamine was injected", afirma ele.

Esses achados in vivo foram validados e refinados em estudos paralelos com culturas de neuroblastoma [4]. Bettendorff demonstrou que sulbutiamina penetra nas células neurais 20 vezes mais mais rapidamente que tiamina regular - não por um transportador saturável, mas por difusão passiva não-saturável. Uma vez dentro da célula, sulbutiamina é rapidamente hidrolisada a tiamina livre, gerando concentrações intracelulares 10 vezes maiores que as obtidas com tiamina regular.

Mais importante: esses experimentos revelaram a existência de dois pools distintos de tiamina difosfato (ThDP) na mesma célula - um pool grande mitocondrial com turnover lento (~17 horas) que representa as coenzimas ligadas, e um pool pequeno citosólico com turnover rápido (~1-2 horas) que é o precursor real do ThTP. Sulbutiamina alimenta preferencialmente este pool de "alto turnover", explicando por que ela é mais eficaz que tiamina regular para aumentar ThTP mesmo quando ambas geram quantidades similares de ThDP total [4].

Funcionalmente, Bettendorff também demonstrou que ThTP ativa canais de cloreto de alta condutância com uma correlação dose-resposta hiperbólica (K₀.₅ = 0.27 pmol/mg). Esses canais raramente se abrem em condições normais, mas são ativados durante stress celular, despolarização ou choque hipoosmótico - sugerindo que ThTP funciona como um "interruptor de emergência neural" que modula excitabilidade em situações específicas [5]. Isso conecta diretamente a capacidade única da sulbutiamina de aumentar ThTP com efeitos funcionais precisos na atividade neural.

Com isso, temos que:

Sulbutiamina:

  • Aumenta de maneira muito mais robusta a incorporação nos fosfatos de tiamina, especialmente no ThTP, que está associado a funções de membrana, regulação de canais iônicas e, possivelmente, sinalização neural.

  • Aumenta especialmente o pool de TDP livre no citosol, aquele de turnover alto, que é o precursor direto do TTP — algo que a tiamina simples não faz tão eficientemente.

🔍 O que realmente faz o ThTP? [5, 6]

Se a sulbutiamina desloca consistentemente o metabolismo da tiamina para a produção de ThTP, a questão inevitável torna-se: quais são as funções estabelecidas do ThTP? E o que pode significar modular esse metabólito no cérebro?

Aqui, retomamos o que já vimos nas entries anteriores - mas com um olhar mais apurado para as implicações para a sulbutiamina. Essa sessão irá se centrar em dois estudos importantes do Bettendorff sobre derivados fosforilados de tiamina e sobre suas funções não coenzimáticas.

A literatura atual, mesmo com as limitações interpretativas de Bettendorff, permite extrair algumas respostas razoavelmente sólidas sobre a relevância funcional do aumento de ThTP pela sulbutiamina.


1. Modulação de canais aniônicos de alta condutância

O papel mais robustamente documentado do ThTP é como modulador de canais aniônicos de alta condutância [7]. ThTP ativa os chamados "maxi-anion channels" – posteriormente identificados como formas abertas do transportador SLCO2A1 – que permitem passagem não apenas de Cl⁻, mas também de ATP e outros ânions.

Funcionalmente, isso se traduz em:

  • Regulação de excitabilidade neuronal,

  • Volume celular,

  • E sinalização purinérgica – especialmente em situações de stress celular.


2. Modulação metabólica via glutamato desidrogenase

Evidências experimentais também suportam o papel do ThTP como modulador alostérico da glutamato desidrogenase, enzima que regula o equilíbrio entre glutamato, α-cetoglutarato e amônia.

Isso posicionaria ThTP na intersecção entre metabolismo energético e neurotransmissão glutamatérgica – embora a relevância fisiológica real permaneça a ser determinada.


3. Sensor bioenergético mitocondrial

Adicionalmente, a síntese mitocondrial de ThTP dependente do gradiente de prótons sugere sua função como “sensor bioenergético” – níveis altos indicando capacidade respiratória íntegra, níveis baixos sinalizando comprometimento mitocondrial.


4. Fosforilação direta de proteínas

Há também evidências preliminares de que ThTP pode fosforilar diretamente certas proteínas, como a rapsyn na junção neuromuscular, como vimos nos últimos textos.


🧠 Funções variam em robustez

Importante: essas funções do ThTP variam enormemente em robustez experimental.

  • Enquanto a modulação de canais de cloreto tem evidência sólida,

  • Outros papéis permanecem especulativos ou baseados principalmente em dados in vitro.


Implicações para a sulbutiamina

A implicação é clara e poderosa: sulbutiamina, como única substância capaz de aumentar ThTP cerebral de forma robusta, está simultaneamente modulando pelo menos quatro sistemas neurológicos fundamentais - excitabilidade celular (canais iônicos), metabolismo de neurotransmissores (glutamato desidrogenase), eficiência sináptica (fosforilação proteica), e integridade bioenergética (sinalização mitocondrial).

Isso não é especulação - é dedução lógica direta dos dados experimentais. Se ThTP tem essas funções (comprovadas), e sulbutiamina é tão eficaz em aumentar ThTP cerebral (comprovado: vimos isso no cérebro de ratos - no córtex, hipocampo, cerebelo e medula - e com níveis especificamente elevados de ThTP se acumulando nos botões sinápticos, mielina e mitocôndrias!), então sulbutiamina necessariamente modula todos esses sistemas.

Seus efeitos pleiotrópicos na cognição, fadiga, e função neuromuscular deixam de ser misteriosos - são consequências previsíveis de sua ação multimodal via ThTP. E coerentes com as ações multimodais de ThTP, que cumpre papéis não-coenzimáticos, em vias extremamente elementares da saúde neuronal.

  • Por isso, caracterizar sulbutiamina como simples "precursor de tiamina" é reducionismo científico. Ela é um modulador sistêmico de múltiplas vias ThTP-dependentes no cérebro - algo que a simples tiamina é incapaz de fazer - uma categoria farmacológica praticamente única e relativamente obscura na neuropsicofarmacologia moderna. Essa deve ser provavelmente a essência da farmacodinâmica da sulbutiamina. Não entendemos completamente o ThTP. Sabemos que ele está envolvido em processos primitivos, pleiotrópicos, básicos, elementares dos neurônios - condução de impulsos nervosos, sinalização molecular, condutância elétrica, metabolismo energético. E sabemos que a sulbutiamina aumenta o ThTP cerebral de forma consistente - quiçá, como sua PRINCIPAL ASSINATURA FARMACOLÓGICA. Posto de outra forma: se tivéssemos que descrever numa única afirmativa: "Como a sulbutiamina age farmacologicamente?", a resposta mais próxima da verdade provavelmente seria: "Ela aumenta os níveis de ThTP". Seus efeitos farmacológicos, portanto, passam pelo ThTP - portanto, passam pela multiplicidade funcional do ThTP: a sulbutiamina, portanto, modula, interfere, intervém em questões tão cruciais da fisiologia neuronal.

Isso forneceria uma base mecanística plausível para seus efeitos clínicos pleiotrópicos.

🚩 O problema de Bettendorff

Até aqui, a lógica experimental é sólida. Se ThTP tem esses papéis bem documentados, e sulbutiamina é comprovadamente capaz de elevá-lo no cérebro de forma robusta, então seus efeitos clínicos são uma consequência direta dessa farmacodinâmica.

Contudo, há um obstáculo irônico – e, confesso, que até irritante enquanto eu escrevo – que atravessa todo esse campo de pesquisa: o próprio Lucien Bettendorff.

Bettendorff, incontestavelmente, é o maior especialista mundial em ThTP. É dele praticamente todo o corpo experimental relevante que temos hoje. Mas ele também é, paradoxalmente, o maior entrave epistemológico desse campo.

Bettendorff demonstra uma capacidade quase patológica de produzir dados experimentais sólidos e depois desperdiçá-los com interpretações contraditórias.

Ao longo de três décadas de produção científica, Bettendorff demonstra um padrão recorrente e profundamente problemático:

  • Uma capacidade experimental excepcional, produzindo dados elegantíssimos, rigorosos, precisos. (Estamos falando de estudos com ratos intubados, com acesso venoso central para coleta de sangue em tempo real, cérebros homogeneizados, HLPC e técnicas refinadas de laboratório que escapam minha compreensão);

  • E uma incapacidade quase estrutural de interpretar adequadamente esses mesmos dados.

Ele documenta, com robustez, que a sulbutiamina aumenta ThTP em múltiplas regiões cerebrais (hipocampo, córtex, cerebelo, medula), que isso não ocorre com tiamina pura, que ThTP é concentrado em compartimentos neurais funcionais (mitocôndrias, mielina, sinaptossomos) — e, ainda assim, se recusa sistematicamente a admitir que os efeitos neuropsicológicos da sulbutiamina possam ser mediados por ThTP.

Exemplo (nos primeiros trabalhos, ThTP era citado como TTP):

  • As it causes a large increase in cytosolic thiamine concentration, SBT, in contrast to thiamine, would shift the equilibrium toward the synthesis of TDP (high turnover pool) and TTP. The turnover of TTP is not dramatically affected. This would explain why chronic administration of SBT, in contrast to thiamine, leads to an increased TTP content in rat brain [13]. SBT is a psychotropic agent prescribed for the symptomatic treatment of functional asthenias [28]. Effects on longterm memory [29] and on the waking state [30] have also been reported. Though there is not yet any direct evidence that the effects of SBT are mediated by TTP...

Em um único parágrafo, ele diz que a sulbutiamina é capaz de aumentar o ThTP. Que a sulbutiamina tem efeitos psicotrópicos. E que não tem evidências que seus efeitos sejam mediados pelo ThTP - sem reconhecer que essa é a explicação mais óbvia.

Ele mesmo produz os dados que sustentam essa conclusão, mas se refugia em formulações evasivas, reticentes e, muitas vezes, autorrefutáveis.

  • Em 1994, demonstra que sulbutiamina aumenta tiamina livre e ThTP no cérebro de ratos.

  • Em 2013, afirma, no mesmo tom categórico: “No important increase in brain thiamine levels are observed even with these derivatives.”

Bettendorff trata sulbutiamina com descuido conceitual evidente. Me parece que, para ele, sulbutiamina é meramente uma "ferramenta farmacológica" para estudar ThTP, não um composto digno de investigação própria. É o cara da Bioquímica, não da Farmacologia. Mas não precisava chutar a Farmacologia para tão longe. Isso se reflete em teorias mecanísticas embaraçosamente simplistas - como a hipótese de que sulbutiamina funciona apenas "porque mantém níveis séricos mais altos" - que ignoram completamente a saturação de transportadores e falham em explicar por que tiamina em doses divididas não reproduziria os mesmos efeitos.

🌐 Para além do universo Bettendorff

Para formar uma visão científica equilibrada da sulbutiamina, precisamos urgentemente de perspectivas independentes que a tratem como protagonista farmacológico, não como coadjuvante na história do ThTP.

Para validar essas conexões, precisamos urgentemente sair do universo conceitual de Bettendorff e buscar perspectivas científicas mais diversificadas. O próximo passo não é mais dissecar suas frases ou tentar resolver suas contradições internas. O próximo passo é buscar perspectivas frescas na literatura sobre a sulbutiamina.

Isso por si só fornecerá um framework muito mais robusto e elegante para compreender seus efeitos clínicos — da melhora da fadiga e do humor, até potenciais adjuvâncias em doenças neurodegenerativas, cognitivas e psiquiátricas.

[1] Subcellular localization and compartmentation of thiamine derivatives in rat brain. Bettendorff, L., Wins, P., & Lesourd, M. (1994). Biochimica et Biophysica Acta (BBA) - Molecular Cell Research, 1222(1), 1–6. https://doi.org/10.1016/0167-4889(94)90018-3

[2] Biological functions of thiamine derivatives: Focus on non-coenzyme roles. Bettendorff, L., & Wins, P. (2013). OA Biochemistry, 1(1), 10. https://doi.org/10.13172/2054-9878-1-1-529

[3] Injection of sulbutiamine induces an increase in thiamine triphosphate in rat tissues. Bettendorff, L., Weekers, L., Wins, P., & Schoffeniels, E. (1990). Biochemical Pharmacology, 40(11), 2557–2560. https://doi.org/10.1016/0006-2952(90)90099-7

[4] The compartmentation of phosphorylated thiamine derivatives in cultured neuroblastoma cells. Bettendorff, L. (1994). Biochimica et Biophysica Acta, 1222(1), 7-14

[5] Biological functions of thiamine derivatives: Focus on non-coenzyme roles. Bettendorff, L., & Wins, P. (2013). OA Biochemistry, 1(1), 10. https://doi.org/10.13172/2054-9878-1-1-529

[6] Update on thiamine triphosphorylated derivatives and metabolizing enzymatic complexes. Bettendorff, L., & Wins, P. (2021). Biomolecules, 11(9), 1302. https://doi.org/10.3390/biom11091302

[7] Chloride permeability of rat brain membrane vesicles correlates with thiamine triphosphate content. Bettendorff, L., et al. (1994). Brain Research, 652(1), 157-160.


SULBUTIAMINA PARTE 2 - Como a sulbutiamina hackeia o metabolismo cerebral | E sobre a tiamina trifosfato

A transição

Aqui já não estou mais pedindo desculpas. O tom muda - ainda respeitoso com Bettendorff, mas agora estou construindo teoria própria. Começou a síntese: se a sulbutiamina aumenta ThTP, e ThTP faz X, Y e Z, então a sulbutiamina deve fazer X, Y e Z também.

É neste texto que desenvolvo o conceito de ThTP como "termômetro metabólico" - uma das ideias que mais me orgulha na série. Também surge o conceito de "afinador neural" e a ideia de que a sulbutiamina não energiza, mas otimiza. Já estou pensando de forma mais sistêmica, conectando pontos que ninguém havia conectado.

Psicologicamente, é o momento onde paro de tentar entender Bettendorff e começo a pensar independentemente. Ainda o cito respeitosamente, 

Dynamic balance



Summary

  • Sulbutiamina, derivada de tiamina, aumenta níveis intracelulares de tiamina livre e seus ésteres fosfatados, especialmente tiamina difosfato (ThDP) e tiamina trifosfato (ThTP).

  • ThDP atua como coenzima crucial no metabolismo energético, explicando os efeitos dramáticos da deficiência de tiamina em doenças como a Síndrome de Wernicke-Korsakoff.

  • ThTP, molécula ubíqua e não-coenzimática, sintetizada principalmente pela ATP sintase mitocondrial no cérebro, funciona como indicador da intensidade metabólica celular.

  • Níveis elevados de ThTP refletem alta capacidade de resposta metabólica; níveis baixos indicam estresse celular ou falência da resposta energética, como observado em insuficiência cardíaca e estimulação visual em babuínos.

  • Sulbutiamina pode aumentar ThTP em tecidos metabolicamente estressados, otimizando a disponibilidade de substratos para a síntese energética, especialmente em estados de demanda aumentada, como fadiga e astenia.

  • ThTP participa da liberação de neurotransmissores (dopamina, acetilcolina) e modula proteínas por fosforilação direta, influenciando a transmissão sináptica e a excitabilidade neuronal.

  • Sulbutiamina pode melhorar a função neuromuscular em neuropatias como Charcot-Marie-Tooth, possivelmente reorganizando a placa motora via fosforilação da rapsyn.

  • A ação da sulbutiamina vai além do aumento de energia celular, atuando como um "afinador neural" que otimiza comunicação neuronal em múltiplos níveis, do metabolismo à modulação iônica.

  • Potencial terapêutico amplo e adjuvante em diversas patologias com déficit energético ou funcional, especialmente em estados deficitários como astenias, sem ser um tratamento milagroso, mas um contribuinte valioso.

  • Compreensão aprofundada da sulbutiamina exige considerar seu impacto nos ésteres de tiamina, especialmente ThTP, molécula evolutivamente conservada e ainda pouco compreendida.


Retomando os estudos sobre a sulbutiamina

A sulbutiamina, formado por duas moléculas de tiamina modificadas e ligadas por uma ponte de dissulfeto. Em seu metabolismo, aumenta os níveis de tiamina livres no meio intracelular. Por sua vez, aumentos suprafisiológicos de tiamina, como vimos na entrada anterior, pode ter, teoricamente, alguns efeitos em cascata - que ajudam em insights sobre a farmacologia da sulbutiamina. Há proteínas ligantes específicas - grosso modo, receptores intracelulares para tiamina - o que é um tanto fantástico, pois essa vitamina, então, passa a agir como uma molécula sinalizadora. Esses receptores estão nos botões sinápticos e, quando ativados, parecem levar à exocitose de neurotransmissores. Poderíamos especular, por extrapolação ampla, que a sulbutiamina tem um efeito global no aumento da neurotransmissão e facilitação da sinaptogênese.

Além disso, o aumento de tiamina poderia, por tabela, conduzir a um aumento de síntese dos seus ésteres fosfatados. O mais famoso é a tiamina difosfato, que atua amplamente como uma coenzima. Ela tem papel crucial no metabolismo energético, catalisando reações enzimáticas que em última análise permitem aos neurônios produzirem precioso ATP. Talvez esse seja o motivo mais latente que explique o porquê deficiências de tiamina podem repercutir em quadros clínicos tão dramáticos como a Síndrome de Wernicke-Korsakoff, marcado por confabulações e danos em estruturas específicas no cérebro. O substrato molecular da Síndrome, por óbvio, é tão pleiotrópico quanto as funções da tiamina - mas quando você prejudica algo tão básico quanto o metabolismo oxidativo, isso pode explicar boa parte do problema.

Isso posto, nossa atenção se volta a uma pequena fração do pool de substâncias "tiamínicas": a tiamina trifosfato. É uma molécula que parece ser ubíqua, de E. coli até humanos, com funções obscuras. Não é uma coenzima - a natureza escolheu a forma difosfato para isso. Seus papéis são não-coenzimáticos. Isso torna tudo muito enigmático e interessante, quando paramos para pensar que, com a sulbutiamina, podemos estar aumentando os níveis de uma substância evolutivamente conservada, mas que não entendemos tão bem. É comprovado que a sulbutiamina aumenta os níveis de tiamina trifosfato. A relevância clínica disso, é que é misteriosa. Vamos buscar algumas respostas - ou, mais provavelmente, insights que acabam apenas por gerar mais perguntas ! - hoje no artigo Update on Thiamine Triphosphorylated Derivatives and Metabolizing Enzymatic Complexes, de 2021, do "tiaminólogo" Lucien Bettendorff.

Como fabricamos tiamina trifosfato?

Bettendorff explica que a síntese de tiamina trifosfato (ThTP) ocorre por dois mecanismos principais. O primeiro é por meio da adenilato kinase, no citosol. Aqui, as reações, para alguns autores, são quase como "efeito colateral" da atividade da adenilato, em que o ThTP é um subproduto metabólico.

ThDP + ADP → ThTP + AMP

A segunda forma, que interessa bem mais, é por meio da ATP sintase mitocondrial. A ATP sintase é específica do cérebro, ocorrendo nas mitocôndrias, na cadeia transportadora de elétrons. Sugere-se que a síntese se dê por um mecanismo análogo ao da formação do ATP. Isso não ocorre no músculo, não ocorre no fígado -- ocorre apenas no cérebro, nas mitocôndrias. A ATP sintase é acoplada ao metabolismo energético mitocondrial. Ao aumentar a tiamina difosfato disponível, a sulbutiamina poderia alimentar essa via (embora ela também seja regulada por outros fatores).

ThDP + Pi → ThTP + fosfato

Não está claro em que condições a tiamina trifosfato é apenas "efeito colateral" da síntese de ATP ou de outras reações enzimáticas - ou quando cumpre um papel fisiologicamente relevante. Bettendorff aposta na última ideia. Ele conta sobre a autópsia de pacientes com insuficiência cardíaca, em que os níveis de tiamina trifosfato são baixos. O produto da degradação, pela ThTPAse é ThDP e, em última instância, será metabolizada na forma de tiamina monofosfato (ThMP). Aqui, temos células - cardiomiócitos - energeticamente ineficientes, com mudanças metabólicas. Baixas de tiamina trifosfato podem ser como um termômetro da saúde metabólica, já que sua síntese está acoplada ao metabolismo de energia das células. Níveis baixos de ThTP sugerem, portanto, que a síntese está relativamente baixa comparado à hidrólise de ThTP; acumulando-se, nesse contexto, a ThMP.

Como interpretar um aumento de ThTP?

Se baixas em tiamina trifosfato comunicam estresse celular, a sulbutiamina pode estar endereçando essa via em tecidos metabolicamente estressados. Isso, contudo, é altamente especulativo.

Do que eu entendi, a evidência sugere que a tiamina trifosfato (ThTP) funciona como um indicador de intensidade metabólica. Demanda tecidual aumentada = metabolismo energético elevado = é natural que ThTP, que é dependente do gradiente de prótons e acoplado à cadeia respiratória mitocondrial, também aumente.

Níveis elevados de ThTP podem, talvez, não sinalizar problema, mas sim capacidade de resposta metabólica ativa. Quando as células precisam "acelerar" - seja por demanda energética ou estresse adaptativo (como vemos no exemplo de E. coli em "starvation" de aminoácidos, que poderia pressionar mais o metabolismo oxidativo) - a síntese de ThTP aumenta como reflexo de um metabolismo oxidativo intensificado. É o equivalente bioquímico de "pisar no acelerador" quando necessário.

Níveis baixos de ThTP, por outro lado, podem indicar falência da capacidade de resposta, ou estresse excessivo do sistema. Nos cardiomiócitos de pacientes com insuficiência cardíaca, a ThTP diminuída sugere não um "repouso metabólico", mas uma incapacidade de acelerar quando a demanda exige - como um motor que não consegue aumentar as rotações sob carga.

Bettendorff cita, por exemplo, um estudo com babuínos submetidos à estimulação visual intermitente → razão [ThTP]/[ThMP] diminuiu no córtex visual. Ou seja, ThTP cada vez menos sintetizado, cada vez mais degradado... E ThMP aumentando, igualzinho nós vimos naqueles cardiomiócitos de pacientes coronarianos.

Essa interpretação sugere que ThTP baixo pode ser tanto sinal de sistema falindo (coronarianos) quanto de sistema operando no limite absoluto (babuínos). Em ambos os casos, a ThTP está nos contando algo sobre o estado energético da célula. E estado energético é algo tão fundamental para a biologia celular. O simples fato de a sulbutiamina estar "cutucando" um mecanismo tão primário, tribal, nos informa que ela está interferindo em algo muito essencial.

Para Bettendorff, a diminuição do ThTP reflete síntese diminuída de ThTP pela ATP sintase em condições de alto consumo energético. Haveria um redirecionamento maior para a síntese de ATP. Não é momento de sintetizar ThTP. A célula está sob altíssima atividade elétrica, metabólica -- seus recursos fosfatados estão sendo dispendidos em ATP. Durante essa situação:

  • Hidrólise de ThTP continua normalmente

  • Síntese de ThTP diminui (ATP sintase ocupada)

  • Resultado: ThTP ↓ e ThMP ↑

  • Plus: escassez de ATP também diminui síntese de ThDP

Bettendorff está dizendo que quando o cérebro trabalha intensamente, ThTP cai não porque está sendo "usado", mas porque sua síntese diminui quando a maquinaria energética está focada em fazer ATP.

Essa perspectiva redefine como entendemos a ação da sulbutiamina. Ela não é simplesmente um "acelerador metabólico universal", mas um otimizador de substrato que remove gargalos específicos.

A sulbutiamina aumenta a disponibilidade de ThDP (substrato), mas a síntese final de ThTP ainda depende de múltiplos fatores: capacidade da ATP sintase, atividade da cadeia respiratória, presença de "ativadores metabólicos" e integridade do gradiente de prótons.

Em outras palavras: a sulbutiamina pode ser mais eficaz em situações onde há demanda metabólica presente, mas recursos limitados - não necessariamente em estados de repouso completo. Curiosamente, ela é indicada justamente em... Fadiga, exaustão, astenia; quando a necessidade de produção de energia é aumentada e, por algum motivo, não estamos conseguindo atendê-la.

ThTP: além do metabolismo energético

O ThTP ainda tem papéis no cérebro que vão além dessa função de termostato energético. Há evidências -- mas longe de serem claras sobre o quão fisiologicamente relevantes são -- de que o ThTP está envolvido com a liberação de neurotransmissores. Bettendorff menciona indução de liberação de dopamina num processo cálcio-dependente no estriado; e na transmissão colinérgica. Isso é bem interessante, pois nós vimos que a tiamina, por si só, também pode afetar a neurotransmissão. Com isso, ao aumentar tanto tiamina quanto ThTP, há pelo menos duas bases teóricas para apontar que a sulbutiamina aumenta de maneira um tanto inespecífica a liberação de neurotransmissores.

De fato, como veremos depois, há estudo em animais que mostram que a sulbutiamina em altas dosagens aumenta a HACU (high affinity choline uptake), ou seja, a captação de colina por neurônios do hipocampo; o que, por sua vez, imaginamos que aponta para um uso aumentado (e, por conseguinte, mais liberação) de acetilcolina. No mesmo estudo, esse foi o mecanismo proposto como subjacente para uma melhora na consolidação de memórias dos animais.

A tiamina trifosfato ainda atua como modificadora direta de proteínas, fosforilando alvos específicos sem necessidade de enzimas intermediárias - uma capacidade relativamente rara na bioquímica.

Dois exemplos ilustram essa versatilidade:

1. Modulação sináptica: ThTP fosforila a rapsyn, proteína que organiza receptores nicotínicos na junção neuromuscular, potencialmente melhorando a eficiência da transmissão entre nervo e músculo.

Teoricamente, a fosforilação da rapsyn permitiria organizar de forma mais coesa os receptores nicotínicos. Uma conexão interessante é que temos estudos demonstrando que a sulbutiamina e outros derivados de tiamina podem ter efeito terapêutico em pacientes com a doença de Charcot-Marie-Tooth. Trata-se de uma neuropatia periférica, em que há danos a proteínas da bainha de mielina, o que prejudica a transmissão dos impulsos elétricos e, em última análise, enfraquece o sinal nas junções neuromusculares. A sulbutiamina aumenta a força muscular em pacientes com Charcot-Marie-Tooth (grip strenght) em doses de apenas 200 mg. Isso poderia ser por vários mecanismos que vimos - a facilitação da neurotransmissão, a melhora nas vias energéticas; - mas um elegantemente a se propor, também em bases puramente teóricas: uma reorganização final na placa motora - de modo que os impulsos mais raros e desorganizados que chegam possam ser aproveitados ao máximo. Com isso, haveria uma melhora da função neuromuscular.

2. Regulação da excitabilidade: Ativa canais de cloreto especiais que não apenas modulam a excitabilidade neuronal, mas também liberam ATP - criando uma cascata de sinalização célula-a-célula.

Creio que isso também fala a favor de um efeito mais pleiotrópico quando analisamos a sulbutiamina. Não me parece haver algo de fato neurotransmissor-específico, mas sim um reforço mais genérico ou intervenção em temas mais básicos, em funções elementares dos neurônios.

Implicações Para a Sulbutiamina

Isso redefine completamente o perfil farmacológico da sulbutiamina. Não estamos falando apenas de "mais energia celular", mas de um "afinador neural" que otimiza múltiplos aspectos da comunicação neuronal: força de transmissão sináptica, regulação da excitabilidade e sinalização intercelular.

A sulbutiamina pode estar literalmente calibrando a maquinaria neural em múltiplos níveis simultaneamente - do metabolismo energético à modulação fina de canais iônicos. É um mecanismo de ação muito mais elegante e multifacetado do que inicialmente aparentava.

Agora, temos um framework aprofundado e relativamente único para entender a sulbutiamina. É hora de nos voltarmos diretamente para ela, com essa base teórica já muito bem sedimentada. Estou curioso para explorar mais conexões e ver como isso se traduz na prática clínica!

Creio que, de fato, essa exploração do ThTP e tiamina foi essencial para eu ganhar compreensão e insights únicos sobre a sulbutiamina. Ela não parece operar num vácuo - o mecanismo de ação dela inevitavelmente terá que passar, de alguma forma, pela tiamina e seus ésteres. Entender apenas "ah, ela aumenta a HACU" é arranhar a superfície de sua farmacologia, creio. Ela faz isso por algum motivo. E o motivo, não pode ser por outra via, que não esteja entremeada com a tiamina.

SULBUTIAMINA PARTE 1 - Lucien Bettendorff e as Contradições Invisíveis

 Onde tudo começou

Este primeiro texto me pega ainda respeitoso, quase reverente diante da autoridade científica. Eu estava genuinamente tentando entender Bettendorff - o maior especialista mundial em derivados de tiamina. Achava que o problema era meu: "Deve ter algo que não estou vendo." O tom é cauteloso, cheio de "talvez" e "pode ser". Ainda estou tentando encaixar as peças dentro do framework dele.

O que não sabia era que as contradições que me incomodavam não eram falhas na minha compreensão - eram falhas reais na literatura. Este texto documenta o momento exato onde a inquietação intelectual nasce. Leiam como um detetive tentando ser educado com o principal suspeito.

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Imagem por Mindsera

RESUMO
  • Revisão de literatura sobre sulbutiamina, destacando seu papel como pró-fármaco da tiamina e seu impacto nos níveis cerebrais de tiamina e derivados, especialmente tiamina trifosfato (ThTP).

  • Exploração do papel clássico da tiamina como coenzima no metabolismo energético e das funções não-coenzimáticas menos compreendidas, como sinalização celular e modulação da liberação de neurotransmissores.

  • Discussão sobre a controvérsia na literatura quanto à capacidade da sulbutiamina de atravessar a barreira hematoencefálica e aumentar efetivamente os níveis cerebrais de tiamina, com evidências contraditórias do próprio Bettendorff.

  • Comparação entre sulbutiamina e benfotiamina, destacando diferenças estruturais e farmacológicas que explicam a eficácia central da sulbutiamina versus a ação periférica da benfotiamina.

  • Hipótese de que a sulbutiamina atua por múltiplas vias: penetração parcial na barreira hematoencefálica, conversão local em tiamina e derivados, e geração de metabólitos tiolados com propriedades neuroprotetoras e antioxidantes.

  • Identificação de proteínas ligantes de tiamina em sinapses que podem funcionar como receptores modulando a liberação de neurotransmissores, sugerindo mecanismos sinápticos para os efeitos da sulbutiamina.

  • Reflexão sobre a importância das contradições científicas para aprofundar o entendimento e corrigir dogmas, valorizando a tolerância à incerteza e o amadurecimento no letramento científico.

  • Consideração do potencial terapêutico da sulbutiamina e da tiamina em doenças neuropsiquiátricas, com reconhecimento da necessidade de mais estudos para validar os efeitos pleiotrópicos observados.


Estou revisando alguns artigos para, por hobby, aprender e entender mais sobre a sulbutiamina, uma molécula que me fascina - e que eu sinto que nunca a entendi por completo. Há algo em seu mecanismo que... Me escapa! A literatura é esparsa. E é algo amplamente usado como nootrópico e psicoestimulante. Sua eficácia também - até que ponto é confiável?

Como ponto de partida, eu decidi ler o artigo: "Bettendorff L, Wins P. Biological functions of thiamine derivatives: Focus on non-coenzyme roles. OA Biochemistry 2013 May 01;1(1):10." Esse artigo não fala sobre a sulbutiamina em específico. Mas ele aborda de forma abrangente a tiamina e seus derivados. Como a sulbutiamina é um dímero de tiamina - e, em seu metabolismo, gera tiamina e aumenta seus níveis, bem como dos ésteres de fosfato de tiamina -- entender as funções desses se tornou mister e importante. O mecanismo de ação da sulbutiamina inevitavelmente passa através de causar níveis suprafisiológicos de tiamina no tecido nervoso.

A função mais clássica da tiamina e da tiamina difosfato é o seu papel no metabolismo oxidativo de glicose, servindo de coenzima. Isso por si só é relevante - nós precisamos dela para produzir energia. Acho improvável que o usuário comum, porém, tenha níveis tão comprometidos de tiamina a ponto de que a sulbutiamina faça diferença aqui - mas é possível. Talvez trazendo a eficiência mitocondrial de geração de ATP para mais próximo do seu teto.

Contudo, a tiamina e seus derivados exercem outros papéis obscuros - que podem ser relevantes para a compreensão da sulbutiamina, em última análise. O artigo é assinado por Bettendorff - um louco, no melhor sentido, que há 30 anos estuda obsessivamente na Bélgica a tiamina, com foco especial nos seus derivados mais "exóticos". Ele crava que "ThTP is a particularly intriguing molecule". Trata-se da tiamina trifosfato, essa ThTP. Esse é um derivado - que sabidamente também é aumentado no cérebro após a administração de sulbutiamina - que compreendemos menos. É conservado entre espécies - das bactérias aos humanos. Não participa de reações enzimáticas. Parece atuar sinalizando escassez: déficit de aminoácidos, estresse metabólico. Um mensageiro que soaria um alarme para a célula se adaptar - e entrar num estado de exceção - quando se acumula nas mitocôndrias, no caso de células humanas. Essa é uma hipótese. Se isso for verdadeiro, uma especulação é a de que a sulbutiamina - considerando que ela aumente os níveis mitocondriais de ThTP - acionaria vias de resposta ao estresse nas células. As respostas são um tanto obscuras - mas será que podem ser adaptativas em doenças neuropsiquiátricas? Por exemplo, ajudando neurônios acessarem "reservas funcionais" que os forcem a funcionar melhor. Aqui, entramos quase na ficção científica - com alguma frágil plausibilidade.

Um caso mais forte é que a tiamina e a ThTP estão envolvidas na liberação de neurotransmissores. Bettendorff é categórico aqui. Identificaram receptores para tiamina nas sinapses - em vesículas sinápticas, por exemplo. Isso é... Intrigante. Termos receptores para tiamina indica que ela funciona como mensageira. Esses receptores, quando ativados, parecem facilitar a liberação de ao menos dopamina, noradrenalina e acetilcolina. De novo, aqui: a sulbutiamina, ao provocar níveis suprafisiológicos de tiamina, iria ativar esses receptores em nível maior. E aumentar a transmissão de aminas e acetilcolina. É uma base mecanística sofisticada para explicar efeitos tão amplos dela na cognição e humor.

Nós sabemos que a sulbutiamina está fazendo algo. Eu ainda não revisitei os estudos específicos sobre elas - mas eu lembro que tem um pouco de tudo. Modulação de receptores de dopamina e glutamato, alterações nos níveis de DOPAC, modulação de acetilcolina... Há estudos em Alzheimer, esclerose múltipla, pacientes deprimidos, astenia, recuperação pós-infecciosa. São efeitos pleotrópicos. Resta ver a qualidade desses estudos, também. O Arcalion - medicamento à base de sulbutiamina - é usado há décadas.

Por ora, o que eu vi é essa revisão do Bettendorff. Até mesmo brincava com o ChatGPT que o cara, que no ResearchGate diz que "eu estou interessado em todos os aspectos da tiamina" é quase um... tiaminólogo. Ele se ultraespecializou... em vitamina B1. Um grão de areia numa praia. Que ele estuda obsessivamente há 30 anos, tendo descoberto que existe uma ThTPase -enzima que cliva o ThTP (seu ídolo), e moléculas de adenina com tiamina-trifosfato. "Bettendorff, o que acha do ácido fólico?" "Eu já disse: EU SÓ SEI SOBRE TIAMINA. TI-A-MI-NA" rs.

Junto com o Claude, Perplexity e ChatGPT (curioso, usei 3 IAs - para escrever numa quarta, o Perplexity!) - esmiucei o artigo. Bettendorff escorrega em ao menos uma parte: diz que sulbutiamina e benfotiamina - e todos os derivados farmacêuticos de tiamina - atuam genericamente para aumentar os níveis de tiamina no sangue, sem distinção; e que a tiamina tem transporte limitado para o cérebro por conta de proteínas na barreira hematoencefálica; e que: essas moléculas nem chegam ao cérebro, nem causam aumento de tiamina no cérebro. O que é falso. Como demonstrarei:

1) Sulbutiamina e benfotiamina tem perfis bem diferentes; então - elas precisam agir diferente!

2) O próprio Bettendorff - e essa é uma parte desconcertante - fez um estudo em 1990 inteiro sobre aumentos dos níveis de tiamina trifosfato em ratos (no cérebro) após administração de tiamina.

3) E o próprio autor segue trazendo evidências dos efeitos da tiamina em megadoses ou de seus derivados farmacêuticos em doenças neurodegenerativas. Quase como se dissesse: "olhem, essa pomada! Não temos evidência de que ela atua na pele E ela é muito eficaz em dermatites".

Bom, o que segue abaixo é mais um fluxo de pensamento com base no artigo - sem muito compromisso em legibilidade, é mais para registro... Ainda não sei o que farei disso tudo. Talvez escrever um capítulo sobre sulbutiamina (?). Mas me parece que esses detalhes minúsculos podem não ser interessantes para quase ninguém rs. Mas vamos lá. Conhecimento é válido.:

A vitamina B1 é fundamental para todos os organismos. O motivo principal? A sua forma difosforilada - tiamina difosfato - serve de coenzima para complexos enzimáticos mitocondriais. Resultado? Deficiência de tiamina = menor metabolismo oxidativo = morte celular, eventualmente. Nos animais, o cérebro é o órgão mais "vampiresco" - que usa mais oxigênio e glicose -- portanto, os neurônios são as células mais sensíveis à deficiência de tiamina. Isso tem repercussões clínicas. Beriberi, uma condição polineurítica; e síndrome de Wernicke-Korsakoff em etilistas, em que ocorrem lesões cerebrais dieencefálicas seletivas.

Embora a tiamina difosfato seja a mais "famosa", existem várias outras formas fosforiladas e adeniladas de tiamina - a monofosfato (ThMP), trifosfato (ThTP) e até mesmo adenosina tiamina trifosfato e adenosina tiamina difosfato (ufa!). Se existem, é porque devem ter alguma função. É um pouco obscuro porque a natureza escolheu a tiamina difosfato para ser a coenzima - as propriedades catalíticas da tiamina não são influenciadas pelos grupos fosfatos. Ou seja, ThMP e ThTP serviriam.

Bettendorff especula em 2013 que a tiamina e seus derivados teriam um papel não-coenzimático -- especialmente relacionado à formação nervosa. É algo que ele já vinha estudando há 20 anos.

Um pouco de bioquímica

  • Tiamina entra nas células por transportes específicas.

  • É imediatamente fosforilada em ThDP por meio de uma pirofosfoquinase citosólica.

  • E, daí, ela pode ainda ser fosforilada em ThTP ou aqueles derivados adenilados.

  • Mas o "destino" mais comum da ThDP é ser hidrolisada em ThMP, que é então recilcado em tiamina. As enzimas que fazem isso não foram identificadas.

"Uma molécula particularmente intrigante"

É nesses termos que Bettendorff declara-se sobre o amor da sua vida - tiamina trifosfato (ThTP), molécula que ele vem estudando há décadas. "É o único composto trifosforilado que não é um nucleotídeo", afirma, extasiado.

A grande questão da tiamina trifosfato é a seguinte, que o GPT expressou bem, ao pensar junto comigo:

  • Sim — a ThTP (tiamina trifosfato) tem duas ligações fosfoanidrido, como o ATP, o que a torna uma molécula "rica em energia" e capaz de doar fosfato para proteínas.

  • É uma espécie de “ATP da tiamina”, com potencial para fosforilar alvos — embora ainda não se saiba se isso acontece de forma significativa in vivo (ou seja, se tem um papel fisiológico concreto, ou é só algo que conseguimos demonstrar experimentalmente

Em bactérias E. coli, (itálico para Lineu não brigar comigo rs), a ThTP se acumula na ausência de aminoácidos. O ThTP poderia funcionar como um sinalizador celular de escassez — atuando como uma espécie de "mensageiro da fome" que ajuda a célula a se adaptar à privação. Ou seja, ele avisa: "é hora de mudar a estratégia" - e a célula entra em estado de exceção. É uma hipótese.

Há duas formas de produzir ThTP.

1. Via Adenilato Quinase (AK1) - no citosol:

  • Reação: ThDP + ADP → ThTP + AMP

  • Acontece o tempo todo ("constitutiva")

  • Bettendorff chama de "side-reaction" -um efeito colateral, quase acidental.

2. Via FoF1-ATP sintase - na mitocôndria:

  • Reação: ThDP + Pi → ThTP

  • Só acontece em condições metabólicas específicas ("strongly dependent on metabolic conditions")

Ou seja. Ambas as vias acontecem, mas em condições diferentes:

  • A via da AK1 parece ser constitutiva, funcionando o tempo todo como um subproduto metabólico.

  • Já a via da FoF₁-ATP sintase é regulada por condições energéticas

Embora não haja uma enzima “dedicada” à produção de ThTP, os mamíferos possuem uma enzima altamente específica para destruí-lo: a ThTPase de 25 kDa, presente no citoplasma de células adultas e diferenciadas.

Essa enzima pode funcionar como um "sistema de reparo", degradando ThTP que teria sido produzido acidentalmente. No entanto, em animais como frangos, peixes e porcos, essa ThTPase é ausente ou pouco ativa — e mesmo assim, o ThTP se acumula sem causar toxicidade, podendo até ultrapassar os níveis da forma coenzimática (ThDP) nos músculos e em órgãos elétricos.

Onde exatamente a ThTP está sendo produzida importa mais do que quanto está sendo produzida.

ThTP citosólica (via AK1) seria, essencialmente, "lixo metabólico elegante" - um subproduto da atividade constitutiva da adenilato quinase que só se acumula quando a ThTPase está sobrecarregada ou ausente.

ThTP mitocondrial (via ATP sintase), por outro lado, seria o verdadeiro "sinal de emergência metabólica" - produzida apenas quando a maquinaria energética celular está sob condições específicas de estresse.

Entra a sulbutiamina

É aqui que a sulbutiamina entra em cena de forma intrigante. Esta molécula sintética - essencialmente duas moléculas de tiamina ligadas por uma ponte dissulfeto - foi desenvolvida para contornar as limitações de transporte da tiamina através de membranas celulares. Ao elevar dramaticamente as reservas intracelulares livres de tiamina, a sulbutiamina aumenta os níveis de ThTP nos tecidos nervosos.

Mas a pergunta de um milhão de dólares permanece: a sulbutiamina está entupindo a "lixeira" citosólica ou hackeando a "sirene" mitocondrial?

Se for o primeiro caso, estaríamos lidando com um fenômeno bioquímico relativamente trivial. Mas se for o segundo - se a sulbutiamina estiver forçando a ATP sintase mitocondrial a produzir ThTP mesmo em condições não-estressantes - então estaríamos testemunhando algo muito mais subversivo: a simulação farmacológica de um estado de emergência celular como estratégia preventiva.

Ou seja: nem todo aumento de ThTP é sinal de algo significativo — depende de onde ele está sendo produzido. Se é no citosol, pode ser apenas ruído; se é na mitocôndria, talvez estejamos diante de uma linguagem bioquímica que a célula usa para responder ao mundo.

Proteínas que se ligam à tiamina

Isso é interessante. Bettendorff conta sobre proteínas que se ligam especificamente à tiamina ou aos seus derivados fosforilados. Mas isso não forma uma coenzima.

O mais relevante:

Um grupo da Ucrânia (Yulia Parkhomenko) isolou, do cérebro de rato, uma proteína 103–107 kDa capaz de se ligar a:

  • ThMP

  • ThTP

  • (em menor grau) ThDP

Essa proteína foi isolada em sinaptossomos, localizada principalmente nas vesículas sinápticas e na membrana do terminal pré-sináptico — sugerindo que possa atuar como um “receptor de tiamina” pré-sináptico, modulando a liberação de neurotransmissores.

Isso é crucial porque isso explicaria efeitos neurológicos da sulbutiamina que vão além do metabolismo energético. A sulbutiamina aumenta alguns ésteres de tiamina -- isso estimularia tais receptores, especulativamente. Com isso, os efeitos da sulbutiamina (anti-fadiga, anti-apatia, cognitivos) podem estar relacionados à modulação sináptica direta, não apenas ao metabolismo mitocondrial.

Então, podemos dizer que há dois mecanismos possíveis para a sulbutiamina:

  • Mitocondrial (via ThTP como sinal de emergência metabólica)

  • Sináptico (via proteínas ligantes de tiamina modulando liberação de neurotransmissores)

Tiamina na liberação de neurotransmissores

A tiamina e seus derivados ésteres fosfatados, por meio de papéis não-coenzimáticos, facilitam a neurotransmissão, provavelmente por potencializar a liberação de ao menos três neotransmissores: acetilcolina, dopamina e noradrenalina, o que foi demonstrando no cérebro mamífero. A deficiência de tiamina, por sua vez, gera "disfunção de vesículas sinápticas", com menor liberação de dopamina, glutamato ou acetilcolina.

Uma hipótese é a de que ésteres-fosfato de tiamina levem à fosforilação da sinapsina I, proteína que regula a fusão de vesículas com a membrana sináptica para a liberação de neurotransmissores.

Isso sugere que, indiretamente, a sulbutiamina poderia aumentar globalmente a liberação de neurotransmissores.

Efeitos terapêuticos

Bettendorff fala de efeitos "benéficos" de tiamina e de precursores de tiamina farmacêuticos com maior biodisponibilidade. Aqui, estamos entrando num território de doses suprafisiológicas de tiamina. Ele cita que a tiamina, em plantas, é uma molécula de sinalização que ajuda na adaptação a situações de estresse. Em células de mamíferos: a tiamina protege células da retina contra a toxicidade do glutamato; e promove a sobrevivência de neurônios do hipocampo.

Moléculas hidrofóbicas, como a sulbutiamina, "furam o bloqueio" de transporte por proteínas de membrana que regula a entrada de tiamina nas células. Nesse caso, a sulbutiamina cruza a membrana livremente - aumentando os níveis de tiamina livre, que pode ser subsequentemente fosforilada.

O Mistério da Sulbutiamina: Como uma Contradição Simples Revelou um Paradigma Errado

Às vezes, as descobertas mais importantes surgem não de experimentos grandiosos, mas de pequenas inconsistências que se recusam a desaparecer.

O Dogma Inquestionável

Durante décadas, a literatura científica repetiu um mantra com convicção absoluta: "a sulbutiamina cruza facilmente a barreira hematoencefálica devido ao seu caráter lipofílico." Bulas médicas, artigos peer-reviewed, bases farmacológicas - todos ecoavam essa verdade aparentemente estabelecida. Era o tipo de "fato" que ninguém questionava porque todos "sabiam" que era verdade.

Até que resolvi verificar as fontes.

O Primeiro Fio Solto

Em 1990, Bettendorff e cols. demonstraram que a administração de sulbutiamina a ratos aumentava significativamente os níveis cerebrais de tiamina, ThMP, ThDP e, sobretudo, ThTP — o trifosfato de tiamina, um derivado menos conhecido, mas potencialmente neuroativo. O aumento foi evidente em múltiplas regiões do cérebro, e não foi reproduzido com tiamina convencional.

Porém, em uma revisão posterior (2013), o mesmo autor escreveu:

  • "None of these precursors has ever been demonstrated to reach the brain parenchyma… No important increase in brain thiamine levels are observed even with these derivatives."

Como a mesma pessoa pode negar o fenômeno que ele mesmo demonstrou?

A lenda da travessia

A afirmação de que sulbutiamina “cruza a BHE” provavelmente nasceu da combinação entre:

  • A observação legítima de efeitos centrais;

  • A estrutura lipofílica da molécula;

  • A ausência de métodos analíticos sensíveis nos primeiros estudos.

Essa associação levou ao que hoje reconhecemos como um fenômeno comum: a repetição acrítica de uma hipótese plausível até que se torne dogma. Uma mentira contada mil vezes...

Porém, estudos cromatográficos recentes mostram que a sulbutiamina não é detectada no sangue ou no cérebro em sua forma original. Isso sugere uma conversão extremamente rápida, sobretudo pela ação de sistemas de glutationa e tioredoxina. Ainda assim, seus efeitos centrais são inequívocos.

O paradoxo da benfotiamina

Esse quadro fica ainda mais instigante quando comparamos a sulbutiamina com a benfotiamina, outro derivado da vitamina B1. Ambas elevam tiamina plasmática, ambas são pró-fármacos — mas só a sulbutiamina tem efeitos centrais. Se ambas operassem através do mesmo mecanismo de fato - conversão sistêmica em tiamina, que é em seguida entregue aos tecidos - então deveriam apresentar perfis neurológicos similares.

Porém,

Sulbutiamina: Aumenta significativamente tiamina cerebral, produz efeitos cognitivos claros, modula neurotransmissores.

Benfotiamina: Falha completamente em elevar tiamina cerebral, sem efeitos neurológicos, limitada a ações periféricas.

Lembrando: segundo Bettendorff - eles teriam o mesmo mecanismo:

These molecules are either relatively hydrophobic (sulbutiamine, fursultiamine) or are converted to a hydrophobic precursor (benfotiamine) allowing them to cross membranes relatively freely (Fig. 3). The general effect of these derivatives is to rapidly increase circulating thiamine to levels higher than those obtained by an equivalent dose of thiamine. It must be emphasized than none of these precursors has ever been demonstrated to reach the brain parenchyma. They are all converted to thiamine either during the passage from intestine to blood or in the liver. As the blood-brain barrier strongly limits thiamine uptake by the brain (thiamine entry could be limited by a self-exchange), no important increase in brain thiamine levels are observed even with these derivatives.

Mas como dois compostos seguindo supostamente o mesmo mecanismo produzem resultados cerebrais diametralmente opostos?

A resposta parece estar calcada em:

Estrutura química: sulbutiamina é um dissulfeto lipofílico; benfotiamina é um tioéster fosforilado e mal absorvido.

O Modelo Multi-Via: Além da Conversão Simples

A análise integrada sugere que sulbutiamina opera através de múltiplas vias complementares que explicam tanto sua eficácia cerebral quanto a falha de compostos similares:

Penetração Direta Limitada: Uma fração pequena mas significativa pode cruzar a barreira hematoencefálica antes da conversão completa, aproveitando sua natureza lipofílica genuína.

Redução Capilar Localizada: Capilares cerebrais contêm sistemas glutathione/thioredoxin abundantes que reduzem rapidamente dissulfetos de tiamina, criando "zonas de conversão" na interface da barreira hematoencefálica. Há indícios de que a sulbutiamina seja reduzida já nos capilares cerebrais, gerando tiamina e tiamina-fosfatos localmente — o que explicaria seus efeitos regionais em córtex, hipocampo, cerebelo.

Efeitos metabólitos específicos

A redução da ponte dissulfeto da sulbutiamina gera metabólitos contendo grupos tiol livres (–SH), que podem ter propriedades neuroprotetoras e antioxidantes independentes da simples entrega de tiamina. Esses tióis bioativos podem:

  • ✅ Sequestrar espécies reativas de oxigênio e nitrogênio (ROS/RNS);

  • ✅ Regenerar a glutationa reduzida (GSH), o principal antioxidante intracelular;

  • ✅ Modificar canais iônicos ou proteínas sinápticas por reação com cisteínas reativas;

  • ✅ Interagir com receptores ou sistemas redox neuronais de forma independente da tiamina.

Essas reações podem ocorrer tanto no cérebro quanto no fígado, já que ambos são ricos em sistemas redutores como glutationa redutase e tioredoxina.

No fígado — órgão de primeira passagem da sulbutiamina — a liberação de tióis poderia reforçar o sistema antioxidante hepático, favorecendo a regeneração de GSH, atuando como agente redutor, e até participando de processos de quelação de metais pesados, como fazem compostos tiolados clássicos (ex.: N-acetilcisteína, dimercaprol, mesna).

🔬 Nota: embora esses efeitos sejam altamente plausíveis por analogia farmacológica, ainda carecem de investigação experimental direta no contexto da sulbutiamina. Esta hipótese é, portanto, especulativa, mas sustentada por paralelos bioquímicos robustos.

Amplificação Sinérgica: Esses mecanismos se potencializam mutuamente, criando eficácia cerebral que nenhum mecanismo isolado poderia alcançar.

O Erro Histórico e Suas Consequências

A crença generalizada na "travessia fácil da barreira hematoencefálica" parece ter surgido de uma sequência clássica de inferências não verificadas: efeitos neurológicos observados + estrutura lipofílica = travessia direta da barreira. Essa assunção se cristalizou em dogma através de décadas de citação acrítica.

Simultaneamente, a incapacidade de detectar sulbutiamina intacta no tecido cerebral, mesmo com métodos modernos, sugere que qualquer penetração direta seria modesta - suficiente para criar diferenças funcionais significativas, mas insuficiente para detecção analítica convencional.

Implicações: Quando Detalhes Moleculares Importam

Esta descoberta transcende a farmacologia da sulbutiamina. Ela ilustra como diferenças estruturais aparentemente menores - dissulfetos versus tioésteres, lipofílico versus anfifílico - podem determinar completamente o perfil terapêutico de um composto.

Para o desenvolvimento de neuroprotetores, isso significa que a otimização deve focar não apenas na bioavailabilidade sistêmica, mas na capacidade de ativar múltiplas vias de entrada cerebral simultaneamente. Para a prática clínica, sugere que diferentes derivados de tiamina podem ser genuinamente complementares, cada um endereçando aspectos distintos da fisiopatologia neurológica.

O Valor das Contradições

O mais fascinante nesta história não são as respostas encontradas, mas como as contradições iniciais - aparentemente embaraçosas inconsistências na literatura - se revelaram portais para uma compreensão mais profunda. Em ciência, o desconforto de dados conflitantes frequentemente sinaliza que nossa compreensão atual é inadequada.

Eu, Matheus, sou alguém que lido bem com ambiguidades. Tenho uma tolerância excepcional à incerteza.

Em um mundo de verdades aparentemente estabelecidas, as contradições podem ser nossos melhores professores.

Conclusão provisória, enquanto não leio novos artigos:

A travessia da sulbutiamina não é uma travessia literal, mas funcional. Ela não precisa entrar inteira: basta que ela saiba onde desmontar. Seu metabolismo é seu modo de navegação.

A confusão conceitual entre presença molecular e efeito funcional gerou um mal-entendido que atravessou décadas de literatura. Corrigir esse erro não é apenas um gesto de precisão — é um passo necessário para entendermos com mais clareza como essa substância realmente age.

Talvez, ao invés de buscarmos atravessar barreiras à força, devêssemos observar como certos compostos aprendem a se transformar na soleira da porta. A sulbutiamina é uma dessas moléculas — ela não exige passagem. Ela se dissolve em permissão.

Conclusões de Bettendorff:

Bettendorff lembra as funções da tiamina como coenzima, na forma de tiamina difosfato (ThDP). Como coenzima (na forma de ThDP), participa de praticamente todos os grandes eixos do metabolismo celular: produção de energia, síntese de ribose, ácidos nucleicos, lipídios e neurotransmissores. Não por acaso, o sistema nervoso — altamente dependente dessas vias — é particularmente vulnerável à sua deficiência.

Porém, o que ele acha mais intrigante é o papel de outros ésteres, como tiamina trifosfato, ThTP, que podem cumprir papéis mais sofisticados - como a sinalização de estresse metabólico e estados de exceção celular. Além disso, a própria tiamina tem receptores específicos para ela -- como demonstrado em sinaptossomas cerebrais. Essas proteínas que se ligam à tiamina parecem mediar a liberação de neurotransmissores. Ou seja: para além das funções de metabolismo energético, a tiamina aumenta a liberação de dopamina, acetilcolina e noradrenalina, comprovadamente.

Bettendorff reconhece o potencial terapêutico de interesse da tiamina em Alzheimer e Parkinson.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

O que é colina - e por que ela é crucial para o cérebro?

A colina é figurinha carimbada em suplementos alimentares desenvolvidos para aumentar a memória. Não é à toa: a sua ilustre presença é porque ela é um dos nutrientes chaves para a saúde do cérebro. Manter níveis adequados de colina - pela alimentação ou dieta - é fundamental para manter as engrenagens do aprendizado e raciocínio bem azeitadas.

Confira nesse artigo a importância da colina. E também saiba onde obtê-la na dieta e na suplementação.

Por que a colina é tão importante?

A colina é importante para a síntese de acetilcolina

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Ômega 3 (óleo de peixe) faz bem para o cérebro ou é história de pescador?


Você já deve ter visto propagandas de suplementos de ômega 3 prometendo milagres para a saúde do cérebro. Será que a ciência também concorda que esse nutriente pode melhorar o intelecto -- ou suplementar ômega 3 é puro desperdício de dinheiro?

Eu fui buscar as respostas na literatura científica. E nesse artigo, destrincho tudo para você em linguagem fácil. Você vai conferir como o ômega 3 age e também a sua eficácia.

Açaí: a estratégia mais poderosa e simples para melhorar o desempenho cognitivo

Descubra a potente ação nootrópica da fruta nacional. Rico em antocianinas, o açaí é saudável e deixa o raciocínio mais afiado. Fruta é a versão brasileira do blueberry (mirtilo).

"Há apenas um único suplemento essencial para a memória e foco"

Quando eu quero conhecer melhor sobre algum suplemento, não deixo de consultar o website Examine (em inglês). O Examine se afirma como “o maior banco de dados em pesquisas sobre nutrição e suplementos na Internet”. É um portal independente que traz um apanhado científico sobre os efeitos de inúmeros compostos na saúde. 

No seu guia sobre memória e foco, o examine.com elege um único suplemento como “essencial”:

“Há apenas um único suplemento essencial para Memória e Foco: a humilde blueberry”.